Carta Vária, porquê?



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Pequenas histórias da memória


Morreste-me Fidel, mas Cuba viverá por ti.

Então, Fidel, vais embora, não avisas ninguém? Devias ter-te recordado que já não estavas na clandestinidade, que muitas e muitas pessoas queriam saber noticias tuas, todos os dias, pessoas que te amavam com grande fervor. Todos sabíamos que a tua saúde estava periclitante mas, mesmo assim, achávamos que, pelo menos até aos cem, tu te aguentarias nas canetas. De qualquer modo, como sei onde estás, sempre que eu quiser, falarei contigo. Tenho ligação direta com a constelação da Utopia, onde tu agora moras. Mas, antes que me esqueça, vou contar-te uma pequena história que me deu a conhecer Cuba, tinha eu uns sete anos.

Lá, em Vinhais, uma vila do Norte de Portugal, perto da Galiza, onde eu fui criado, morava um cubano, já velhinho, chamado Catalino. De Cuba ele só tinha a memória, pois a sua mãe D. Catalina, tinha vindo para Galiza e depois para Portugal para que o filho não fosse mobilizado pelo exército espanhol para lutar contra o seu povo. Por isso, da Galiza, mudou-se para Vinhais. Nunca aprendeu a falar direito o português, nem foi para a escola, e a sua profissão era carregar as malas dos caixeiros-viajantes, de um estabelecimento comercial para outro. Tinha uns grandes bigodes, recordo-me bem. Para transportar as malas usava um carrinho. Quando ficou velho o peso do carrinho e das malas já lhe custavam muito esforço. Então, nós os meninos ajudávamo-lo empurrando o carro. Em troca, quando não tinha de entregar malas, juntava-nos em qualquer lugar e contava-nos muitas histórias, todas relacionadas com Cuba. Sobretudo histórias das guerras que os cubanos travavam contra os espanhóis para se tornarem independentes. As pontas do bigode alçavam-se-lhe e os olhos brilhavam-lhe com muita emoção. A tristeza vinha depois quando tinha que nos dizer que Cuba não se havia libertado.
Quando morreu, pobre como sempre vivera, o padre Miguel, um mestiço moçambicano, quis que ele tivesse um grande funeral. Mobilizou a garotada e também as pessoas grandes e assim, o tio Catalino, teve o enterro de um rei. Até um fato novo vestiu. O único! As pessoas eram tantas que os que viam passar o enterro perguntavam quem tinha morrido. Quando respondiam: “o tio Catalino”,arregalavam os olhos e diziam: “ele bem que merecia!”.

Quando eu em Cuba, me hospedei no hotel Nova Iorque, em Havana Velha, senti que estava em casa, pois os nomes das ruas, e a arquitetura da cidade já eu as tinha na cabeça. Condiziam com as histórias do tio Catalino. Fiquei muito feliz e até chorei de alegria e tive uma imensa saudade dele.

Já eu no Brasil, quando era Director do “Jornal do Maranhão”, não sabendo ainda quem venceria a em Cuba, publiquei um pequeno texto que terminava assim: “debaixo dos céus de Cuba, trava-se uma luta liliputiana. Uma luta pela liberdade”.
O meu amor por Cuba começou com as histórias do tio Catalino e foi-se aprofundando à medida que a guerra avançava em Cuba, agora contra os norte-americanos.. Essa guerra que me pareceu no princípio liliputiana, tornou-se realmente uma guerra pela liberdade.Fiz dela o modelo da minha vida revolucionária e foi da Sierra Maestra que foram descendo os meus capitães: Fidel, Raúl, Che Guevara, Camilo Torres.
Morreste-me Fidel, mas Cuba viverá por ti.

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