Carta Vária, porquê?



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Evocação de Zeca Afonso


Nos dias 13 e 20 de Fevereiro, p.p.os  Núcleos da Associação José Afonso de Tavira e de Almada/Seixal, ao festejarem o seu primeiro aniversário,  promoveram  homenagens ao seu patrono, homenagens estas que foram  amplamente participadas e concorridas. Nelas estiveram presentes músicos que foram companheiros do Zeca e alguns que não o tendo sido, o tocam e cantam frequentemente. Estes acontecimentos vêm corroborar a atualidade de José Afonso e sobretudo estar atentos à sua mensagem. Hoje, como ontem, a sua palavra e a sua música são absolutamente atuais e impõem-se pelo seu caracter revolucionário. Ouvir hoje José Afonso é uma necessidade imperiosa, pois é obrigatório despertar as consciências que parecem adormecidas, longe da sua mensagem. É imperioso, portanto, que estes atos se repitam até porque  eles abrem caminho a novas participações , a movimentos de consciência , que possam terminar de vez com  a abulia política e social em que Portugal parece mergulhado.
Também eu te evoco, amigo, no dia em que partiste e me deixaste quase sem chão. Pela tua solidariedade, pela tua dedicação a causas, pela tua grandeza humana, pela tua música que se espalhou por muitos lugares e foi denuncia de uma ditadura cruel que me ia destruindo. A minha, tua cantiga, pode ter contribuído para poupar a minha e muitas vidas. Por isso te serei sempre grato. Obrigado pela vida que nos deste.
Por fim quero agradecer aos Núcleos de Tavira e Almada/Seixal e a todas as pessoas que tendo participado desta evocação de José Afonso, me quiseram homenagear recordando o meu caminho no sentido da libertação dos povos. Eu, gostaria de dedicar esta homenagem a todos os meus companheiros que lutaram e morreram incógnitos na sua luta por um mundo melhor.

 
Registo aqui dois testemunhos de amigos, cujas palavras eu não mereço, mas eles merecem que eu agradeça e registe o seu carinho e amizade.
 
De José Fanha:
Querido Alípio, companheiro imprescindível dos pobres e dos poetas, 
Já te disse e repito outra e outra vez:   tu és o a pai que eu gostava de ter tido.
Mas creio que se fosse teu filho não teria recebido   das tuas mãos com menos emoção esse amor à liberdade e à justiça, essa rebeldia perante os poderosos, essa  limpeza de olhar capaz de varar ditadores e carrascos, esse abraço solidário que une os pobres da Terra numa profunda e maravilhosa humanidade.
Querido Alípio 
Desculpa não estar hoje aí ao teu lado. 
Mas permite-me que te diga: bem hajas por cada dia que nos dás. JFanha
De Vladimir José Roque Laia:
Conhecem vocês hoje um Homem excepcional, daqueles com quem nos cruzamos, ao longo da vida, raramente. Digo isto porque tem, e mantem, a postura serena, a simplicidade firme, mas discreta, de quem tranquilamente sabe que, nas suas andanças pelo Mundo, sempre esteve do lado, e ao lado, dos amordaçados, dos injustiçados, dos oprimidos, dos explorados - pelos quais fez ouvir a sua voz e sempre lutou, tendo sofrido duramente na pele, que não no espírito, o arrojo de manter intacta a sua coerência ideológica, filosófica e política. Creio que nisso também consiste a sua honra e a orgulhosa paz interior de que nos apercebemos.
Conheci-o pessoalmente , quando integrámos a comissão política da candidatura do Carlos Marques, então dirigente da UDP, ás presidenciais do ano de 1986, quando finalmente o seu país de origem o acolhera, após 10 anos de duríssima prisão durante a ditadura dos coronéis no Brasil e após ser apátrida, altura em que só o Moçambique de Samora Machel fora o único país que o recebera. Nunca falava de tudo isso, só o presente do que havia a fazer para o futuro interessava, do passado interessavam as lições e as reflexões sobre os acertos e desacertos nos caminhos percorridos. Humanista e activista convicto como era, não pudera deixar de estar numa candidatura cujo lema era "a coragem de ser solidário".
Então como hoje, mantem essa fibra e a mesma coragem - até na luta contra as adversidades, de uma saúde debilitada pelos trabalhos, pelas sevícias e tortura e pela péssima alimentação na prisão, nas quais sempre contou com enorme esteio da sua Mulher.
Ouçam-no, porque vale a pena ouvirem-no, concordem ou não com tudo o que ele diga. Por mim, que lamento não poder estar presente para ouvir, com a estima, admiração e respeito que por ele tenho, envio-lhe um grande e afectuoso abraço,
Vladimir José Roque Laia

 
 

Sem comentários:

Enviar um comentário