Carta Vária, porquê?



domingo, 16 de outubro de 2016

Pequenas histórias da memória

Cheguei ao Brasil num dia de carnaval, em Recife. Cheguei e converti-me, para sempre a esse país. Para sempre. Depois de alguns dias na capital do frevo embarquei para s Luís do Maranhão onde D. Delgado,  o Arcebispo de então,  me recebeu carinhosamente. Luís era então uma cidade gentil , mediana,  com aspeto colonial.  O meu destino era a Universidade de S. Luís, onde por alguns anos leccionei . Mas S. Luís não era apenas uma cidade colonial era também uma cidade onde as lutas operárias já se faziam sentir, grande parte da sua população morava em casas de barro e palha, construídas no mangue, onde a pobreza era uma marca indefectivel  no seu contexto diário. Apesar disso a alegria de viver aparecia em todo o seu tecido social quer no carnaval quer nas festas joninas quer nos grupos de bumba meu boi quer em associações de caracter longinquamente cultural.Foi a sua estrutura sociocultural que me arrancou à
Universidade e me jogou no mangue , nas casas de barro  pau a pique e palha de palmeira. Nas ruas lamacentas, na falta de escolas primárias e na indiferença dos poderes que deviam minorar ou mudar este estado de abandono da grande maioria do seu povo. Deu-se então a minha nova conversão ao Brasil. Deixei a Universidade, peguei os meus poucos haveres e fui morar num desses bairros pobres de ruas sem calçamento, de gente sem trabalho, de todo o povo sem qualquer tipo de assistência. Foi uma surpresa geral para os meus colegas de profissão e para os meus novos vizinhos dos “alagados”. Padre era coisa que por ali não se via, não porque não houvesse lá o que fazer mas porque a cidade colonial era mais condizente com o estado social e talvez até com a sua vocação. Foram tempos difíceis em que tudo teve que ser criado com os moradores e algumas pessoas da cidade colonial. Tudo! Desde as escolas ao centro de saúde, aos poucos hábitos religiosos. Descobriu-se que a solidariedade era um valor e que ninguém estava só no mundo pois sempre havia uma mão a seu lado. Ninguém foi dispensado de participar nessa obra. Ninguém. As festas que antes eram particulares passaram a ser de toda a rua ou até do bairro. A missa dominical de que eles já tinham ouvido falar nas aldeias de onde vieram tornou-se um momento de celebração coletiva onde tudo se discutia, aprovava e cumpria. Assim,  a assistência aos velhinhos, a frequência da escola primária, a preocupação com o trabalho e até o bem-estar material de cada um eram assuntos  discutidos na hora na missa dominical de que todos participavam, rua por rua A minha “conversão” ao Brasil continuava. É claro que estas mudanças, ou estas novidades trouxeram consigo invejas que nós não prevíamos, críticas que nada tinha a ver com a realidade mas a união entre todas reforçava-se dia a dia. Pessoas de outras paróquias vinham á nossa paróquia não só para ver como era mas também para participar porque a missa, um batizado, um casamento tinham uma mística que não existia nas suas paróquias. Até a igreja evangélica que existia na paróquia se dissolveu  e começou a participar com todo o direito nas nossas ações religiosas e de carater cultural. A autoridade eclesiástica manteve-se calada durante algum tempo mas pressionada por gente da igreja  e de outos sectores sociais da cidade viu-se obrigada a intervir sob a alegação de que nós estávamos ultrapassando as normas da igreja. Em primeiro lugar todos os atos de culto eram em português: a missa, as leituras, a pregação. Tudo tinha a participação ativa de todos os crentes. A rua era o lugar escolhido para todas as manifestações religiosas ou outras que a população desejasse fazer. Quem discordou desta nova igreja e quis manter os seus laços com a igreja tradicional mudou de favela voluntariamente. Ao fim de algum tempo a paciência da autoridade eclesiástica acabou.Eu teria de mudar de paróquia, ou voltar à Universidade. Eu, porém, tinha um compromisso comigo mesmo e com o Brasil que assumira quando me converti ao Brasil. Peguei a minha rede e os meus poucos haveres e sem me despedir de ninguém, morei alguns dias com um antigo companheiro de luta e depois ingressei em definitivo nas Ligas Camponesas.
Esta é uma história que se escreve com muitos outros episódios, e que vão desde a prisão à tortura e termina com a minha quase expulsão do Brasil pois o país que eu amava e amo declarava-me apátrida.
Apesar disso aminha conversão mantém-se nem a morte poderá mudá-la.

 

 

sábado, 4 de junho de 2016

Ainda o golpe no Brasil...



Há dias participei numa conferência sobre o Brasil na Universidade Lusófona, na qual estiveram presentes um professor do Sindicato de professores e pessoas indiferenciadas da sociedade brasileira que vive e estuda por aqui. É claro que as opiniões foram várias, o debate foi muito acesso e participaram dele muitas pessoas. O Brasil está na ordem do dia, não por bons motivos, mas por motivos quase fúteis. As Olimpíadas talvez tenham mais importância no momento do que o que se passa no Brasil em termos políticos e institucionais. Parece que tudo está resolvido com uma nomeação para presidente do Temer que eu creio está muito temeroso em relação ao cargo que lhe mandaram ocupar. Ele não sabe se vai, se fica, se caminha para a frente ou se vai de marcha à ré. Vai esperando.

Mas começando pelo princípio: todo o mundo sabe, no Brasil, ou parecia saber, que a Dilma estava a prazo. Fizeram tudo para que assim parecesse e acontecesse. Quem? Os mesmos de sempre. Os golpistas tradicionais que sempre estiveram em todos os golpes desde que o Brasil é Brasil. O latifúndio, especialmente e, agora, o latifúndio e os norte – americanos. Como sabeis, o Brasil foi uma não-colónia que se transformou num não pais. Napoleão ameaçou o rei D. João VI e, este, mais do que depressa embarcou para o Brasil com todos os seus amigos e a comandita que o rodeava.O Brasil foi retalhado em marquesados, condados e outros títulos de nobreza que era aquilo que  D.João VI  tinha de oferecer aos que o acompanhavam na viagem. Tudo terra para cultivar ou pequenas cidades para administrar. Como os índios já não serviam de mão de obra, começou a importar-se mão de obra africana e aí começa a escravatura no Brasil. Assim, todo o desenvolvimento brasileiro e toda a valorização dos marquesados etc, deu-se em cima dos escravos que eram quem trabalhavam a terra, as minas, e tudo o que fosse esforço laboral. Toda a riqueza que o Brasil produzia em parte ia para a Metrópole e para Inglaterra. Houve várias revoltas de escravos mas todas fracassaram, ou porque eram mal organizadas ou porque os senhores estavam perfeitamente preparados para combate-las. Houve fugas de escravos que duraram cem anos., chegando a construir cidades, como Palmares, que depois foram destruídas pelos poderes reais e dos latifundiários. Em determinada altura do governo de Portugal, já que o Brasil era uma Colónia, os liberais de Lisboa exigiram a volta do Rei para a capital do chamado Império. Diga-se, em abono da verdade, que D. João VI regressou ao reino com muito má vontade, deixando a Província do Brasil, sob o Governo de D. Pedro I. Mas as ideias liberais tinham entrado profundamente, tanto em Portugal como no Brasil, e D.Pedro teve de regressar a Portugal, depois de renunciar ao trono do Brasil, para defender os direitos da filha, D. Maria II. No Brasil foi proclamada a República. Os generais sucederam-se uns ao outros e , quando se aboliu a escravatura o Império acabou. E, daí, até ao presente momento, pouco mudou no país continuando os senhores de terra, os liberais novos e antigos a governar o Brasil, dando golpes sobre golpes, uns militares, outros civis, até ao presente momento. O que aconteceu no Brasil com a presidente Dilma foi um golpe de Estado.

Os contornos do caso Dilma começam a definir-se logo na primeira posse como chefe da casa civil. Ela aceita este posto no governo já perfeitamente inquinado, sabendo-se que era ali que se praticavam a maioria das fraude das administração pública brasileira. Quando Lula afastou Dirceu já tinha pleno conhecimento do que acontecia ou acontecera por ali. Mas como foi ele o homem que aproximara o PT dos grupos pequeno-burgueses que ajudaram o Pt a assumir o poder, Lula calou-se. Além do mais, quando Lula constitui o seu Ministério, forma-o com pessoas bem estranhas à política brasileira. O Ministro da Fazenda era um homem do Soros, o presidente do Banco de Fomento vinha do Banco de Boston, e havia outros ministros bem estranhos ao mundo do Partido dos Trabalhadores. Por outro lado, os mais eminentes membros do PT ficaram de fora. Por isso, mutos dos apoios que Lula teve na sua eleição passaram a olhá-lo com uma certa desconfiança. Além do mais algumas da promessas eleitorais ficaram por cumprir, ainda que outras muito importantes, o fossem como o salário família. Mas a educação, transportes, saneamento e outras melhorias prometidas ficaram para o próximo governo. Dilma assume o poder com todos esses encargos, assume a seu modo, mas com coragem. Só que a coragem não basta especialmente quando a “entourage “ que a cerca é incompetente. Dilma deu-se ao luxo de ter 32 ministros, possivelmente para a gradar aos partidos com os quais fez coligação. Interveio na escolha de determinados candidatos seus amigos, contrariando aqueles que o partido tinha escolhido. E assim foi-se isolando, isolando, chegando a esta situação de desconforto. E as hienas, que estavam à espreita para atacar no melhor momento, acossadas pelo desvendar das sua tocas corruptas e fedorentas, atacaram sem pudor nem vergonha. Com alarido e com  todos os dentes podres e sujos.

Fique bem claro que aqueles que apoiamos Dilma, continuamos a apoia-la. Reconhecemos nela capacidades para desempenhar o cargo de Presidente da República. Não podemos consentir é que ela seja jogada fora como um trapo imprestável.

 

 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Adeus , Comandante!




 
 

A morte e o funeral do Almirante Victor Crespo passou quase despercebida, tal como se ele fosse um cidadão anónimo. Infelizmente, isso não aconteceu só com ele, vem acontecendo também com outros. Parece que este país e, especialmente os políticos que nos governam, querem esquecer o 25 de Abril, ignorando aqueles que o planearam e possibilitaram. São esses os mesmos que já retiraram do calendário oficial o dia 5 de outubro, data da implantação da República, o dia 1º de dezembro, dia da restauração da independência e ainda outras datas, algumas de caracter religioso mas todas intimamente ligadas à identidade do povo português.

Talvez não demore o tempo em que estes mesmos senhores obriguem o povo português a recordar a data do estabelecimento da Inquisição em Portugal, a data das cortes de Tomar, onde o ouro de Filipe II de Espanha determinou a anexação de Portugal ao reino Espanhol, ou até o dia 28 de Maio de 1926, segundo estes mesmos políticos, data da “revolução nacional”. É só esperar para ver!

Espero que ao menos em Moçambique o Almirante Victor Crespo tenha sido recordado, pois, a sua ação como Alto-comissário foi decisiva para a independência desse país. É bem sabido que os brancos nascidos ou residentes na ex-colónia, a África do Sul, ainda sob o domínio do racismo Boer e a Rodésia do Sul, de Ian Smith se preparavam para transformar Moçambique também num “país branco”. Foi a ação enérgica e determinada do Almirante Victor Crespo que impediu que tal acontecesse. Conheci em Portugal e em Moçambique alguns brancos e mestiços que o odiavam, mas muitos mais que o tinham na consideração de quase um deus. Também em Portugal acontecia quase o mesmo. Leve-se em conta, ainda, que foi a atitude do Almirante Victor Crespo que iniciou a derrota do apartheid, mais tarde consumada em Angola, pelo corpo expedicionário cubano que derrotou definitivamente o exército do apartheid.

Lembrem-se o Presidente da República e este Governo, que apesar das suas atitudes , no mínimo grosseiras, em Portugal sempre haverá quem recorde com saudade , respeito e gratidão o Almirante Victor Crespo.

Alípio de Freitas

Evocação de Zeca Afonso


Nos dias 13 e 20 de Fevereiro, p.p.os  Núcleos da Associação José Afonso de Tavira e de Almada/Seixal, ao festejarem o seu primeiro aniversário,  promoveram  homenagens ao seu patrono, homenagens estas que foram  amplamente participadas e concorridas. Nelas estiveram presentes músicos que foram companheiros do Zeca e alguns que não o tendo sido, o tocam e cantam frequentemente. Estes acontecimentos vêm corroborar a atualidade de José Afonso e sobretudo estar atentos à sua mensagem. Hoje, como ontem, a sua palavra e a sua música são absolutamente atuais e impõem-se pelo seu caracter revolucionário. Ouvir hoje José Afonso é uma necessidade imperiosa, pois é obrigatório despertar as consciências que parecem adormecidas, longe da sua mensagem. É imperioso, portanto, que estes atos se repitam até porque  eles abrem caminho a novas participações , a movimentos de consciência , que possam terminar de vez com  a abulia política e social em que Portugal parece mergulhado.
Também eu te evoco, amigo, no dia em que partiste e me deixaste quase sem chão. Pela tua solidariedade, pela tua dedicação a causas, pela tua grandeza humana, pela tua música que se espalhou por muitos lugares e foi denuncia de uma ditadura cruel que me ia destruindo. A minha, tua cantiga, pode ter contribuído para poupar a minha e muitas vidas. Por isso te serei sempre grato. Obrigado pela vida que nos deste.
Por fim quero agradecer aos Núcleos de Tavira e Almada/Seixal e a todas as pessoas que tendo participado desta evocação de José Afonso, me quiseram homenagear recordando o meu caminho no sentido da libertação dos povos. Eu, gostaria de dedicar esta homenagem a todos os meus companheiros que lutaram e morreram incógnitos na sua luta por um mundo melhor.

 
Registo aqui dois testemunhos de amigos, cujas palavras eu não mereço, mas eles merecem que eu agradeça e registe o seu carinho e amizade.
 
De José Fanha:
Querido Alípio, companheiro imprescindível dos pobres e dos poetas, 
Já te disse e repito outra e outra vez:   tu és o a pai que eu gostava de ter tido.
Mas creio que se fosse teu filho não teria recebido   das tuas mãos com menos emoção esse amor à liberdade e à justiça, essa rebeldia perante os poderosos, essa  limpeza de olhar capaz de varar ditadores e carrascos, esse abraço solidário que une os pobres da Terra numa profunda e maravilhosa humanidade.
Querido Alípio 
Desculpa não estar hoje aí ao teu lado. 
Mas permite-me que te diga: bem hajas por cada dia que nos dás. JFanha
De Vladimir José Roque Laia:
Conhecem vocês hoje um Homem excepcional, daqueles com quem nos cruzamos, ao longo da vida, raramente. Digo isto porque tem, e mantem, a postura serena, a simplicidade firme, mas discreta, de quem tranquilamente sabe que, nas suas andanças pelo Mundo, sempre esteve do lado, e ao lado, dos amordaçados, dos injustiçados, dos oprimidos, dos explorados - pelos quais fez ouvir a sua voz e sempre lutou, tendo sofrido duramente na pele, que não no espírito, o arrojo de manter intacta a sua coerência ideológica, filosófica e política. Creio que nisso também consiste a sua honra e a orgulhosa paz interior de que nos apercebemos.
Conheci-o pessoalmente , quando integrámos a comissão política da candidatura do Carlos Marques, então dirigente da UDP, ás presidenciais do ano de 1986, quando finalmente o seu país de origem o acolhera, após 10 anos de duríssima prisão durante a ditadura dos coronéis no Brasil e após ser apátrida, altura em que só o Moçambique de Samora Machel fora o único país que o recebera. Nunca falava de tudo isso, só o presente do que havia a fazer para o futuro interessava, do passado interessavam as lições e as reflexões sobre os acertos e desacertos nos caminhos percorridos. Humanista e activista convicto como era, não pudera deixar de estar numa candidatura cujo lema era "a coragem de ser solidário".
Então como hoje, mantem essa fibra e a mesma coragem - até na luta contra as adversidades, de uma saúde debilitada pelos trabalhos, pelas sevícias e tortura e pela péssima alimentação na prisão, nas quais sempre contou com enorme esteio da sua Mulher.
Ouçam-no, porque vale a pena ouvirem-no, concordem ou não com tudo o que ele diga. Por mim, que lamento não poder estar presente para ouvir, com a estima, admiração e respeito que por ele tenho, envio-lhe um grande e afectuoso abraço,
Vladimir José Roque Laia

 
 

domingo, 18 de outubro de 2015

Carta aberta ao Presidente de Angola


Senhor Presidente:

Ao mandar prender Luaty Beirão e os 14 ativistas, que estão até agora encarcerados sem culpa formada, não devia saber que um homem se quiser pode resistir e sobreviver vitoriosamente a qualquer forma de opressão.

Não devia saber porque se esqueceu. Esqueceu que já foi jovem, que já lutou por ideais. Ideais de liberdade de democracia e bem-estar social. Esqueceu tudo porque infelizmente o seu país é o exemplo contrário de tudo isto. É uma ditadura cruel, um valhacouto de ladrões, uma associação de interesses mesquinhos, melhor dizendo, um país sem povo. Quem lho afirma é alguém que durante dez anos esteve preso, sobreviveu às greves de fome e à tortura. Esta é a afirmação de um homem que esteve disposto a morrer por aquilo em que acreditava. E digo-lhe que um homem pode ser triturado pela máquina do terror que a sua condição de homem sobrevive, pois todo o homem pode manter-se vivo enquanto resistir.

A luta dos jovens angolanos é um libelo contra a opressão como forma de vida política, contra o silêncio das mordaças, contra todos os processos de aviltamento dos seres humanos, contra a corrupção ideológica. A luta dos jovens angolanos é a constatação de como o arbítrio avilta os indivíduos e as instituições, corrompendo-os pelo abuso do poder, pela falsa certeza da impunidade, pela imposição imoral de uma vontade sem limites, pelo silêncio indigno, pela conivência criminosa, pela omissão filha do medo, em que o silêncio do terror tem que ser aceito como paz social.

  Se me atrevo a dizer-lhe tudo isto é porque Angola fez parte do meu ideário político e das minhas preocupações revolucionárias e muitos revolucionários angolanos foram meus amigos. Quando parti de Portugal para o Brasil devia ter partido para Angola, mas já nesse tempo as condições da minha ida não foram possíveis, devido às minhas ligações com a resistência angolana. No Brasil, colaborei com a resistência angolana e fui seguindo os seus passos como pude a té porque eu já estava umbilicalmente ligado à resistência brasileira. Mesmo assim, à minha única filha, coloquei o nome de Luanda.

Senhor Presidente, é tempo de não se deixar enredar por intrigas palacianas, por intrigantes gananciosos, por saqueadores de todo o tipo. Quando esse saque acabar o único responsável será o senhor. Se tiver ainda um momento de reflexão possível recorde-se dos seus tempos de jovem quando a revolução do seu país lhe ocupava a sua força, a sua inteligência e todas as suas capacidades. O tempo em que provavelmente era feliz.

Como sabe, o poder tanto pode chegar aos que dele abusarão como àqueles que o usarão com legitimidade a favor dos seus povos. Mas só os poderosos podem ser magnânimos, cometer actos que aos outros mortais não são possíveis Tem agora tempo de ser magnânimo: retire os presos da prisão, ouça-os e depois peça-lhes desculpa. Eles merecem.

Lisboa, 18 de Outubro de 2015

Alípio de Freitas

terça-feira, 21 de abril de 2015

Requiem para um sonho!


 

Há mais de mil anos que os europeus exploram a África. Primeiro foram os ikos, um povo grego que em muitas e variadas ocasiões devastou o delta do Nilo. Depois vieram os romanos que, com a sua avidez, conquistaram o Egipto por causa da abundância de trigo. A seguir e por outros motivos conquistaram a Líbia, ocuparam a Tunísia e a Argélia, fixando-se finalmente numa parte do que é hoje Marrocos. Tudo para, diziam eles, evitar o domínio do Mediterrâneo pelos Cartagineses, um povo fenício que se fixou onde é hoje Túnis. Este domínio e exploração só terminam quando os árabes diante da fraqueza e contradições do Império Bizantino, conquistam o que é hoje a Síria, o Líbano, a Jordânia, Israel, o Egipto e tudo o mais até Marrocos. Mais tarde chegaram à Península ibérica onde ficarão por mais de 700 anos. A conquista de Ceuta, pelos portugueses marca, porém, a reconquista da África pelos europeus, reconquista essa que se faz ao longo de toda a costa africana e chega até ao Golfo Pérsico. Tudo o que era riqueza, como o ouro e pedras preciosas abundantes em África, vai chegando à Europa. Mas a necessidade de mão de obra na América inicia o trágico período da Escravatura. Segundo Davidson, historiador do assunto, mais de 150 milhões de africanos foram arrancados  da África e levados para as Américas.

Com o início da industrialização da Europa exigem-se matérias-primas abundantes. A África é então objeto de novas explorações que já não se limitam à costa mas entram dentro, dando origem ao tratado de Berlim que acomodou os interesses da Alemanha, Inglaterra, França, Bélgica, deixando a Portugal Moçambique, Guiné e Angola. Desta vez, já não era a escravatura o principal interesse, até porque no mundo industrializado, um operário ficava mais barato, mais em conta, do que um escravo. Mas todas as outras riquezas, como o ouro, a prata os diamantes, as madeiras, os minérios como o cobre, os produtos agrícolas continuaram a fluir para a Europa. Por incrível que pareça em consequência são agora os europeus sob as mais diversas denominações e profissões que emigram para África.

No final da segunda guerra mundial, sob pressão dos EUA que também havia sido uma colónia inglesa, dá-se início à descolonização transformando-se as antigas colónias em novos países independentes. Só que os ex-colonizadores esqueceram-se de que a África foi divida a lápis e esquadro, separando povos e regiões que jamais se encontrariam num novo país. Também os líderes africanos foram escolhidos a dedo para que permitissem e favorecessem a exploração dos seus países. Os que se opuseram ou resistiram foram assassinados ou depostos. Todavia, as riquezas de que necessitava a Europa continuaram a fluir para cá. Depois criou-se a teoria de que a África e os africanos não só não se sabiam governar como também não tinham condições de se sustentar, esquecendo-se os teóricos de que a África é um continente que dispõem de recursos suficientes para proporcionar bem-estar ao triplo da sua população. Recursos que vão da água potável, ao petróleo, ao gás natural, às terras férteis, às madeiras, ao ouro, à platina, aos diamantes…

Como a exploração continua, a miséria se tornou endémica e instabilidade política é permanente, criou-se nos africanos a miragem da vinda para a Europa, onde todos são felizes, onde o bem – estar é geral e a riqueza um património comum. Por isso eles arriscam tudo para chegar a esse “El Dorado”, entregando-se a todo o tipo de traficantes para morrerem depois na sua maioria afogados no Mediterrâneo. E o que fazem os europeus? Reuniões e mais reuniões, mas nada  de concreto para parar esse fluxo migratório.
Não sei, mas talvez chegue o dia em que os europeus entendam que a terra e as suas riquezas são um bem comum do qual todos os homens e mulheres têm o direito de usufruir.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Informação ou fait divers?



Desde que dos Emiratos Árabes Unidos levantou voo um avião movido a energia solar, desde esse dia, as notícias são sempre as mesmas ou quase as mesmas. Apenas a descoberta de um novo planeta com mares de água doce e salgada com profundidades de 100km quebrou esta rotina. As notícias versam sempre sobre o EI e as suas atrocidades, as falas da nossa ministra das finanças, os incumprimentos fiscais do 1ºministro, a demorada prisão do ex-primeiro ministro Sócrates, as intermináveis audições dos responsáveis pela falência do BES e ainda o discurso moralista do presidente da república. Tudo isto é muito pouco para um país que se encontra à beira da falência, um país em que a segurança social é uma fraude e a saúde quase um caos, um país em que a imigração é a única porta de saída para muitos e muitos jovens e adultos qualificados, em que a pobreza atinge hoje níveis degradantes, para além dos pobres anteriormente identificados, quase toda a antiga classe média. Na verdade, creio que os jornalistas têm de zelar pela sua profissão evitando ser repetidores de notícias que todos conhecem e já perderam o sentido. À notícia tem de juntar-se a razão de ser da sua existência, uma vez que as coisas acontecem ou não acontecem por acaso, têm causas que as precedem ou lhe dão origem. Se não vejamos: porque é que saiu da imprensa a notícia do avião movido a energia solar? Porque foi um fracasso? Porque não cumpriu a sua missão? Nada disso! O problema é que o protótipo de energia solar põe em causa indústrias poderosas que vão desde o petróleo até às novas tecnologias e às atuais companhias de transporte aéreo. O que é que se pretende com a divulgação sistemática do EI e suas atividades? Porque não se divulgam e aprofundam os verdadeiros interesses que estão por trás dessa organização? Quem a mantém? Todos os jornalistas sabem, mesmo os mal-informados que quem patrocina o EI é a Arábia saudita e o Qatar com a proteção dos EUA. Porquê? Porque é necessário diabolizar e destruir todos os países que não aceitam a existência de Israel naquela região como pais. Assim foi necessário destruir o Iraque, agora será a Síria e o Líbano e a seguir a Palestina. Os árabes nada têm, como povo, contra o povo de Israel, como a história o demonstrou, pois foram sempre os árabes quem recebeu os judeus que foram expulsos pelos cristãos. Toda esta intriga que resultou no Estado de Israel é obra do sionismo internacional e da falência da sociedade das nações que nem resolveu satisfatoriamente o problema do povo judeu nem do povo curdo. O interesse dos EUA na região é o petróleo por isso eles protegem a Arábia saudita e os Emiratos. Se eles pudessem garantir, o que já se lhes tornou inviável, o petróleo do México, da Venezuela, do Equador e da Argentina, seguramente se desinteressariam dessa região, pois eles sabem que mais tarde ou mais cedo toda a África e o Médio-Oriente serão efetivamente muçulmanos. Agora mesmo já pouco resta para que não o seja. Provavelmente dentro de pouco tempo os únicos lugares onde o Islão não prevalecerá será na Namíbia, dada a forte influência cultural alemã nesta sua antiga colónia e a África do Sul onde será possível uma aliança da Igreja Reformada holandesa com os interesses da grande finança judaica e árabe. Como todas as religiões o Islão tem um sentido expansionista, uma necessidade intrínseca de chegar aos povos onde ainda não está presente. Nunca desistiu desse princípio e tem-no feito de diversas maneiras, mas muito especialmente através da Jiade, a Guerra Santa. Foi assim ainda Maomé era vivo. Logo a seguir à sua morte a sua filha mais velha comandou pessoalmente a Jiade que levou o Islão até ao Egipto. Em menos de dois séculos todo o Oriente Médio e todo o norte de África eram muçulmanos. À Europa, através da Península Ibérica chegam no sec.VIII e propõe-se conquistar a Europa e só não acontece porque são derrotados, por Carlos Martel, na batalha de Arles. Mesmo assim, o Império turco, após a tomada de Constantinopla em 1453 estendeu-se à Grécia, à Macedónia, à Bósnia, ao Montenegro, à Albânia. Só desistem do seu intento já no sec.XVII depois da batalha de Lepanto onde são derrotados definitivamente. Só no final da 1ª guerra mundial é que o Império turco, símbolo mais alto do expansionismo do Islão, foi desmembrado dando origem a uma série de outros países tais como a atual Turquia, o Iraque etc. Pessoalmente não creio que o Islamismo se expanda para além das regiões já mencionadas, como por exemplo, para a América latina ou países como a China, Japão ou Coreias dado os níveis de resistência cultural e material que aí iriam encontrar. O que pode acontecer é que se divida uma vez que a sua unidade dogmática é muito frágil.