Carta Vária, porquê?



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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Pequenas histórias da memória


 
Dr. Benês

Quando em 1962 , sem permissão do meu Bispo, fui a Moscovo assistir ao  Conselho Mundial da Paz, tive ocasião de lá encontrar pessoas que já faziam parte da História , como Krutchev, a quem condecorei com uma enxadinha das Ligas Camponeses, tendo-o encontrado mais tarde, já para uma longa conversa, no parque Lenine, quando  ele passeava com duas netas(ou netos); Gagarin  que  a todo o custo me queria cumprimentar dando-me  um beijo na boca;  e outras, como La Passionaria, Pablo Neruda e diversos patriarcas ortodoxos e bispos católicos. Celebrei, também, a convite do Arcebispo de Moscovo, missa católica, na Igreja de S .Luís dos Franceses, à qual assistiu quase toda a delegação brasileira e muitos russos, para quem aquela missa era uma novidade. Foi também o Arcebispo de Moscovo que me convidou, depois da celebração da missa católica, para uma celebração ortodoxa na sua Catedral, com o coro do Bolshoi.
Fiz também uma amizade muito especial com um Ministro da então Checoslováquia, o Dr.Benês, pessoa com quem passei  a me encontrar sempre que estive no seu país.
O Dr. Benês era uma pessoa singular, sempre bem-disposta, e capaz de transformar as piores situações em coisas banais. Um dia, convidou-me para ir almoçar num restaurante perto de Teresin, uma antiga fortaleza militar, mandada construir por Maria Teresa de Áustria e transformada pelos alemães em centro de triagem de prisioneiros, onde morreram cerca de 75.000 pessoas. Como o restaurante onde devíamos almoçar não ficava longe, antes mesmo do almoço, o Dr. Benês fez-me a proposta de visitar a Fortaleza. Aceitei. Logo à entrada, alinhados contra parede havia uma série de beliches de madeira, onde em cada um podiam dormir três ou quatro pessoas. A certa altura o Dr.Benês virou-se para mim, apontou um desses beliches e disse , dando uma grande gargalhada: “este aqui era onde eu dormia, ali, naquele era onde dormia o Ministro da saúde. Logo a seguir dormia o Bispo de”(cidade cujo nome não recordo) e assim por diante. Levou-me depois ao local da Secretaria, à sala dos interrogatórios, e, finalmente, ao saguão onde existiam ainda quatro fornos crematórios. À medida que me ia mostrando toda esta tragédia, o Dr. Benês estava bem-disposto, assobiava, cantarolava, enquanto eu estava cada mais deprimido. Foi assim que eu lhe disse: “Benês, como é que você tendo estado aqui e sofrendo o diabo à mão desses bandidos nazistas, respira tanta alegria, e eu que nunca passei por aqui sinto-me agoniado, tal qual um cão escorraçado?”.Ele parou de assobiar e cantarolar, olhou-me fixamente, de frente, e disse-me muito sério: “Olhe, quando estou triste ou aborrecido, venho aqui e a tristeza e o aborrecimento logo me passam. Mas quando não posso livrar-me desse mal-estar angustiante, vou até Dachau para onde fui para ser executado e só não o fui porque os americanos chegaram. Então sinto-me novo como quando era jovem. Eu devia estar morto, mas estou vivo. Entende agora porque é que eu canto e assobio? É preciso estar diante da morte para se saber o valor da vida”.

Pequenas histórias da memória


Morreste-me Fidel, mas Cuba viverá por ti.

Então, Fidel, vais embora, não avisas ninguém? Devias ter-te recordado que já não estavas na clandestinidade, que muitas e muitas pessoas queriam saber noticias tuas, todos os dias, pessoas que te amavam com grande fervor. Todos sabíamos que a tua saúde estava periclitante mas, mesmo assim, achávamos que, pelo menos até aos cem, tu te aguentarias nas canetas. De qualquer modo, como sei onde estás, sempre que eu quiser, falarei contigo. Tenho ligação direta com a constelação da Utopia, onde tu agora moras. Mas, antes que me esqueça, vou contar-te uma pequena história que me deu a conhecer Cuba, tinha eu uns sete anos.

Lá, em Vinhais, uma vila do Norte de Portugal, perto da Galiza, onde eu fui criado, morava um cubano, já velhinho, chamado Catalino. De Cuba ele só tinha a memória, pois a sua mãe D. Catalina, tinha vindo para Galiza e depois para Portugal para que o filho não fosse mobilizado pelo exército espanhol para lutar contra o seu povo. Por isso, da Galiza, mudou-se para Vinhais. Nunca aprendeu a falar direito o português, nem foi para a escola, e a sua profissão era carregar as malas dos caixeiros-viajantes, de um estabelecimento comercial para outro. Tinha uns grandes bigodes, recordo-me bem. Para transportar as malas usava um carrinho. Quando ficou velho o peso do carrinho e das malas já lhe custavam muito esforço. Então, nós os meninos ajudávamo-lo empurrando o carro. Em troca, quando não tinha de entregar malas, juntava-nos em qualquer lugar e contava-nos muitas histórias, todas relacionadas com Cuba. Sobretudo histórias das guerras que os cubanos travavam contra os espanhóis para se tornarem independentes. As pontas do bigode alçavam-se-lhe e os olhos brilhavam-lhe com muita emoção. A tristeza vinha depois quando tinha que nos dizer que Cuba não se havia libertado.
Quando morreu, pobre como sempre vivera, o padre Miguel, um mestiço moçambicano, quis que ele tivesse um grande funeral. Mobilizou a garotada e também as pessoas grandes e assim, o tio Catalino, teve o enterro de um rei. Até um fato novo vestiu. O único! As pessoas eram tantas que os que viam passar o enterro perguntavam quem tinha morrido. Quando respondiam: “o tio Catalino”,arregalavam os olhos e diziam: “ele bem que merecia!”.

Quando eu em Cuba, me hospedei no hotel Nova Iorque, em Havana Velha, senti que estava em casa, pois os nomes das ruas, e a arquitetura da cidade já eu as tinha na cabeça. Condiziam com as histórias do tio Catalino. Fiquei muito feliz e até chorei de alegria e tive uma imensa saudade dele.

Já eu no Brasil, quando era Director do “Jornal do Maranhão”, não sabendo ainda quem venceria a em Cuba, publiquei um pequeno texto que terminava assim: “debaixo dos céus de Cuba, trava-se uma luta liliputiana. Uma luta pela liberdade”.
O meu amor por Cuba começou com as histórias do tio Catalino e foi-se aprofundando à medida que a guerra avançava em Cuba, agora contra os norte-americanos.. Essa guerra que me pareceu no princípio liliputiana, tornou-se realmente uma guerra pela liberdade.Fiz dela o modelo da minha vida revolucionária e foi da Sierra Maestra que foram descendo os meus capitães: Fidel, Raúl, Che Guevara, Camilo Torres.
Morreste-me Fidel, mas Cuba viverá por ti.

sábado, 4 de junho de 2016

Ainda o golpe no Brasil...



Há dias participei numa conferência sobre o Brasil na Universidade Lusófona, na qual estiveram presentes um professor do Sindicato de professores e pessoas indiferenciadas da sociedade brasileira que vive e estuda por aqui. É claro que as opiniões foram várias, o debate foi muito acesso e participaram dele muitas pessoas. O Brasil está na ordem do dia, não por bons motivos, mas por motivos quase fúteis. As Olimpíadas talvez tenham mais importância no momento do que o que se passa no Brasil em termos políticos e institucionais. Parece que tudo está resolvido com uma nomeação para presidente do Temer que eu creio está muito temeroso em relação ao cargo que lhe mandaram ocupar. Ele não sabe se vai, se fica, se caminha para a frente ou se vai de marcha à ré. Vai esperando.

Mas começando pelo princípio: todo o mundo sabe, no Brasil, ou parecia saber, que a Dilma estava a prazo. Fizeram tudo para que assim parecesse e acontecesse. Quem? Os mesmos de sempre. Os golpistas tradicionais que sempre estiveram em todos os golpes desde que o Brasil é Brasil. O latifúndio, especialmente e, agora, o latifúndio e os norte – americanos. Como sabeis, o Brasil foi uma não-colónia que se transformou num não pais. Napoleão ameaçou o rei D. João VI e, este, mais do que depressa embarcou para o Brasil com todos os seus amigos e a comandita que o rodeava.O Brasil foi retalhado em marquesados, condados e outros títulos de nobreza que era aquilo que  D.João VI  tinha de oferecer aos que o acompanhavam na viagem. Tudo terra para cultivar ou pequenas cidades para administrar. Como os índios já não serviam de mão de obra, começou a importar-se mão de obra africana e aí começa a escravatura no Brasil. Assim, todo o desenvolvimento brasileiro e toda a valorização dos marquesados etc, deu-se em cima dos escravos que eram quem trabalhavam a terra, as minas, e tudo o que fosse esforço laboral. Toda a riqueza que o Brasil produzia em parte ia para a Metrópole e para Inglaterra. Houve várias revoltas de escravos mas todas fracassaram, ou porque eram mal organizadas ou porque os senhores estavam perfeitamente preparados para combate-las. Houve fugas de escravos que duraram cem anos., chegando a construir cidades, como Palmares, que depois foram destruídas pelos poderes reais e dos latifundiários. Em determinada altura do governo de Portugal, já que o Brasil era uma Colónia, os liberais de Lisboa exigiram a volta do Rei para a capital do chamado Império. Diga-se, em abono da verdade, que D. João VI regressou ao reino com muito má vontade, deixando a Província do Brasil, sob o Governo de D. Pedro I. Mas as ideias liberais tinham entrado profundamente, tanto em Portugal como no Brasil, e D.Pedro teve de regressar a Portugal, depois de renunciar ao trono do Brasil, para defender os direitos da filha, D. Maria II. No Brasil foi proclamada a República. Os generais sucederam-se uns ao outros e , quando se aboliu a escravatura o Império acabou. E, daí, até ao presente momento, pouco mudou no país continuando os senhores de terra, os liberais novos e antigos a governar o Brasil, dando golpes sobre golpes, uns militares, outros civis, até ao presente momento. O que aconteceu no Brasil com a presidente Dilma foi um golpe de Estado.

Os contornos do caso Dilma começam a definir-se logo na primeira posse como chefe da casa civil. Ela aceita este posto no governo já perfeitamente inquinado, sabendo-se que era ali que se praticavam a maioria das fraude das administração pública brasileira. Quando Lula afastou Dirceu já tinha pleno conhecimento do que acontecia ou acontecera por ali. Mas como foi ele o homem que aproximara o PT dos grupos pequeno-burgueses que ajudaram o Pt a assumir o poder, Lula calou-se. Além do mais, quando Lula constitui o seu Ministério, forma-o com pessoas bem estranhas à política brasileira. O Ministro da Fazenda era um homem do Soros, o presidente do Banco de Fomento vinha do Banco de Boston, e havia outros ministros bem estranhos ao mundo do Partido dos Trabalhadores. Por outro lado, os mais eminentes membros do PT ficaram de fora. Por isso, mutos dos apoios que Lula teve na sua eleição passaram a olhá-lo com uma certa desconfiança. Além do mais algumas da promessas eleitorais ficaram por cumprir, ainda que outras muito importantes, o fossem como o salário família. Mas a educação, transportes, saneamento e outras melhorias prometidas ficaram para o próximo governo. Dilma assume o poder com todos esses encargos, assume a seu modo, mas com coragem. Só que a coragem não basta especialmente quando a “entourage “ que a cerca é incompetente. Dilma deu-se ao luxo de ter 32 ministros, possivelmente para a gradar aos partidos com os quais fez coligação. Interveio na escolha de determinados candidatos seus amigos, contrariando aqueles que o partido tinha escolhido. E assim foi-se isolando, isolando, chegando a esta situação de desconforto. E as hienas, que estavam à espreita para atacar no melhor momento, acossadas pelo desvendar das sua tocas corruptas e fedorentas, atacaram sem pudor nem vergonha. Com alarido e com  todos os dentes podres e sujos.

Fique bem claro que aqueles que apoiamos Dilma, continuamos a apoia-la. Reconhecemos nela capacidades para desempenhar o cargo de Presidente da República. Não podemos consentir é que ela seja jogada fora como um trapo imprestável.

 

 

domingo, 18 de outubro de 2015

Carta aberta ao Presidente de Angola


Senhor Presidente:

Ao mandar prender Luaty Beirão e os 14 ativistas, que estão até agora encarcerados sem culpa formada, não devia saber que um homem se quiser pode resistir e sobreviver vitoriosamente a qualquer forma de opressão.

Não devia saber porque se esqueceu. Esqueceu que já foi jovem, que já lutou por ideais. Ideais de liberdade de democracia e bem-estar social. Esqueceu tudo porque infelizmente o seu país é o exemplo contrário de tudo isto. É uma ditadura cruel, um valhacouto de ladrões, uma associação de interesses mesquinhos, melhor dizendo, um país sem povo. Quem lho afirma é alguém que durante dez anos esteve preso, sobreviveu às greves de fome e à tortura. Esta é a afirmação de um homem que esteve disposto a morrer por aquilo em que acreditava. E digo-lhe que um homem pode ser triturado pela máquina do terror que a sua condição de homem sobrevive, pois todo o homem pode manter-se vivo enquanto resistir.

A luta dos jovens angolanos é um libelo contra a opressão como forma de vida política, contra o silêncio das mordaças, contra todos os processos de aviltamento dos seres humanos, contra a corrupção ideológica. A luta dos jovens angolanos é a constatação de como o arbítrio avilta os indivíduos e as instituições, corrompendo-os pelo abuso do poder, pela falsa certeza da impunidade, pela imposição imoral de uma vontade sem limites, pelo silêncio indigno, pela conivência criminosa, pela omissão filha do medo, em que o silêncio do terror tem que ser aceito como paz social.

  Se me atrevo a dizer-lhe tudo isto é porque Angola fez parte do meu ideário político e das minhas preocupações revolucionárias e muitos revolucionários angolanos foram meus amigos. Quando parti de Portugal para o Brasil devia ter partido para Angola, mas já nesse tempo as condições da minha ida não foram possíveis, devido às minhas ligações com a resistência angolana. No Brasil, colaborei com a resistência angolana e fui seguindo os seus passos como pude a té porque eu já estava umbilicalmente ligado à resistência brasileira. Mesmo assim, à minha única filha, coloquei o nome de Luanda.

Senhor Presidente, é tempo de não se deixar enredar por intrigas palacianas, por intrigantes gananciosos, por saqueadores de todo o tipo. Quando esse saque acabar o único responsável será o senhor. Se tiver ainda um momento de reflexão possível recorde-se dos seus tempos de jovem quando a revolução do seu país lhe ocupava a sua força, a sua inteligência e todas as suas capacidades. O tempo em que provavelmente era feliz.

Como sabe, o poder tanto pode chegar aos que dele abusarão como àqueles que o usarão com legitimidade a favor dos seus povos. Mas só os poderosos podem ser magnânimos, cometer actos que aos outros mortais não são possíveis Tem agora tempo de ser magnânimo: retire os presos da prisão, ouça-os e depois peça-lhes desculpa. Eles merecem.

Lisboa, 18 de Outubro de 2015

Alípio de Freitas

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Em nome de Deus?


 

Observando a história da humanidade comprova-se que a expansão das regiões se faz sempre, ou quase sempre, de uma forma mais ou menos violenta. Sempre que um povo conquistava outro, impunha-lhe a sua religião como forma de dominação e, este processo manteve-se, praticamente, até aos nossos dias. Isto vem a propósito das execuções sumárias efetuadas pelo  auto denominado Estado Islâmico, no seu avanço para o Oriente Médio e para África. E não escolhe vítimas. Agora mesmo tivemos a noticia de que foram decapitados 21 egípcios cristãos coptas. Porém, houve um tempo em que a difusão da religião não foi assim. Temos de remontar  à expansão do Cristianismo no seu 1º seculo quando o amor se sobrepunha a qualquer outro sentimento. Os próprios pagãos diante da atitude dos cristãos repetiam com profunda admiração ”Vede, como eles se amam!”Mas esta atitude durou pouco porque quando o cristianismo se tornou religião do estado os cristãos repetiram o que já antes fora feito, impondo, ao mesmo tempo, o gládio e a cruz. Por isso, não é de admirar e não nos pode surpreender que o Islão, apesar dos tempos serem outros siga pelos mesmos caminhos. A jiade nada mais é do que a guerra santa contra os infiéis. E infiéis são todos aqueles, mesmo que adorem o mesmo Deus,  o não adorem da mesma forma daqueles que detêm o poder. Também isto é demonstrado pela história mais recente, pelas guerras que os cristãos travaram entre si, tentando cada igreja ou fação impor a sua verdade. Refiro-me, por exemplo, à guerra contra os Ussitas, à guerra dos 30 anos que envolveu os cristãos europeus e teve até repercussões profundas na formação dos estados da América do Sul e do Norte, na África e na Ásia. Todas as guerras de conquista territorial foram sempre acompanhadas de conquistas religiosas que, em alguns casos, levaram ao extermínio total de religiões locais ou à sua imposição. É certo que em todas as religiões houve movimentos e pessoas que procuraram difundir outros caminhos e outros modos de chegar a Deus. Mas o seu poder de persuasão ou influência foi muito pequeno E assim chegamos aos dias de hoje em que as guerras de religião continuam, guerras em que a ferocidade é maior, em que o poder de destruição ultrapassa o poder da espada, em que o mundo muçulmano pode ser transformado num Iraque e cada cidade numa Falluja. Assim o queiram os atuais detentores do poder. Refiro-me especificamente aos EUA. Há já muitas vozes que se levantam para que tal aconteça. Vozes que vêm dos países onde existe grande imigração muçulmana, vozes dos interessados nas riquezas desse mesmo mundo. Só os muçulmanos podem por cobro a tal situação, porque os cristãos estão mais dispostos à revanche do que à conciliação, mais apostados no saque do que no respeito pelas riquezas alheias. E o que restará do Oriente Médio e da África, cristã ou muçulmana se estas atitudes não forem mudadas? Nesta histeria quase universal são muito poucos aqueles que mantêm a serenidade, chamam as partes à razão e recordam a todos os homens que se Deus existe, existe igualmente para todos. Para todos sem distinção. Afinal somos companheiros de viagem.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Rilhafoles à vista!


Como era de esperar, o 1º Ministro grego, Alexis Tsipras foi ao Parlamento para definir o que será o seu Governo. Primeiro, reclamar da Alemanha as indemnizações devidas à Grécia por causa dos estragos aí perpetrados durante a ocupação alemã na II guerra mundial. A Alemanha que se arroga de cobrar juros do capital emprestado aos países que durante a guerra ocupou, tem agora, pela primeira vez, um país que lhe demonstra que o devedor é ela. A Grécia exige o pagamento da dívida. Disse ainda o 1º Ministro grego que a eletricidade voltaria a ser fornecida gratuitamente a todos aqueles que não a podiam pagar. Subiu o salário mínimo para 750,00 euros. Vai distribuir senhas da alimentação aos necessitados. Inviabilizou todas as vendas e privatizações do património e dos recursos naturais da Grécia. Reduziu substancialmente o salário dos políticos. E agora, Sr. Passos Coelho, ainda 1º Ministro? O que diz a tudo isto? Será que estas medidas continuam a ser histórias para crianças? Ou será que no PSD e no CDS não há ninguém que o avise do ridículo em que está a envolver o país?Diz um ditado grego que os deuses quando querem perder os homens, ensandecem-nos. Será que os deuses do Olimpo resolveram divertir-se consigo e com os partidos que o apoiam? Tome cuidado porque em Rilhafoles há sempre vagas disponíveis!

Falando de música


Na sexta-feira p.p. resolvemos ir até ao Alentejo, mais propriamente até a Alvito, vilazinha do distrito de Beja, cujo interesse principal para nós, é o de termos lá alguns amigos e conhecidos e uma casinha, que não sendo um palácio é boa de disfrutar.
Chegámos e estava um frio de rachar daqueles que por esta altura assolam o Alentejo e que só uma boa lareira consegue espantar. O problema é que não havia lenha em casa, os aquecedores a gás estavam sem gás, pelo que resolvemos regressar pela manhã do dia seguinte. Se há uma coisa que não consigo entender é que na cultura cristã o inferno é extremamente quente, enquanto que na cultura grega é extremamente frio. Esta é uma das coisas em que as culturas grega e cristã não se entenderam. Quem sabe se o que está a acontecer entre o Syriza e a Europa não advém daí…

Mas falando a sério. No regresso para Lisboa, ao ligar o rádio do carro estava a ser transmitido na Ant2 um programa de música do professor João de Freitas Branco. Nem pensei em sair dali. E entre música clássica e informações históricas e culturais sobre as músicas, chegámos a Lisboa. Confesso que não me recordo do nome do Programa mas que fiquei seu fã, fiquei. Além do mais, o programa fez-me regressar a um passado já longínquo em que eu mal saído do Seminário, fui trabalhar para uma escola de artes e ofícios que acolhia meninos pobres, de idades entre os sete e os 18 ou 19 anos, quando iam cumprir o serviço militar.
Nessa escola aprendia-se artes tipográficas, mecânica de automóvel e artes afins, como pintura, e carpintaria. A escola primária era feita na escola oficial e alguns alunos estudavam na escola industrial da cidade.

Como em muitas outras escolas semelhantes, o aprendizado da música era oficial e obrigatório, pois em quase todas existia uma banda de música ou orquestra. O Patronato não era exceção. Assim, quando qualquer internando chegava punha-se-lhe nas mãos o solfejo de Tomás Borba, encarregando-se um dos alunos mais velhos do lho ensinar. Em poucos dias aprendiam a solfejar e iam experimentando, conforme as idades e os tamanhos, os instrumentos musicais que tinham à sua disposição. Desta forma, a escola dispunha sempre de uma orquestra e de uma banda de música para atuar em concertos e festas. Muitos dos alunos tornaram-se músicos profissionais em orquestras e bandas de música militares. Digo isto porque não consigo entender que sendo o estudo da música obrigatório em determinados níveis de ensino, a prática da música seja tão escassa e a falta de gosto tão generalizada em Portugal. E não se diga que o povo português não gosta de música, porque em todas as aldeias por onde passei, as pessoas não só cantavam música religiosa como mantinham a prática da música popular, sobretudo a que se referia ao trabalho.

Toda a música tem a sua origem no povo e quando ela se torna mais elaborada é fruto das muitas contribuições que esse mesmo povo lhe dá. Não existiriam nem Bach, nem Sibelius, nem Beethoven e tantos outros se não houvesse a música popular, aquela que tem raízes na cultura do povo.
Quanto ao professor João de Freitas Branco, quero apenas dizer-lhe que me tornei desde já assíduo ouvinte do seu programa e que todos os sábados estarei atento a ouvi-lo na Ant 2. Obrigado, professor.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Onde está o poder?



O País vai mal. Todo o mundo o reconhece. De alguns sectores da direita à esquerda. A cada dia se apresentam novas soluções para a crise, mas ela cada vez se aprofunda mais como uma febre maligna que vai destruindo o corpo da república. Isto, porquê? Porque o país é pasto do capitalismo monopolista, é governado por uma troika estrangeira que o empurra para crises insolúveis e dirigido por políticos incompetentes e corruptos, que não têm nada a ver com os interesses daqueles que os elegeram. As pessoas deixaram de acreditar nos que se dizem seus representantes e, por isso, nos remédios que eles recomendam e ministram para debelar essa febre. A democracia em Portugal, e não só, está em crise, mergulhada numa agonia sem  fim, e sem democracia real, verdadeira, nenhum dos problemas que afligem os povos, principalmente os da União Europeia terá solução. Evidentemente que isto todos sabem, mas recusam-se a trilhar o caminho correto, preocupando-se não em encontrar soluções mas em bisbilhotar, divulgar e opinar, tal casa dos segredos, sobre determinados fait-divers ligados a casos que põem em causa os fundamentos da democracia, como o BES, Sócrates, Vistos Dourados, Apito Dourado, as compras milionárias dos chineses, vendas apressadas do património nacional, etc, etc. Enquanto isso, continua o ataque ao SNS, à Escola Pública, com milhares de funcionários e professores sem colocação ou à beira do desemprego, com estatísticas mentirosas e promessas que nunca serão cumpridas. Creio, porém que ainda há uma réstea de esperança, uma vez que a há pessoas, em todos os sectores de atividade, que se organizam para discutir a atual situação do país e da Europa, mas a quem, a meu ver, falta a decisão de agir. É necessário voltar ao povo e organizá-lo, pois é nele, no povo, que reside o poder.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A praça é do povo.


 
 
 
Estou feliz. A Dilma venceu, mais ou menos à rasquinha, mas venceu. Era mais do que evidente que os cachorros que sempre nos andaram a morder os pés reagissem.Ainda a presidente Dilma não tomou posse e já eles estão inventando a possibilidade do impeachment, acusando-a de graves delitos tais como o chamado Petrolão. Não era de esperar outra coisa, até porque agora não têm mais militares para levá-los pela trela ao poder. Mas o que se faz com cães raivosos? Partem-se-lhes os dentes de modo a que não possam morder. E nisto temos que estar todos juntos, bem unidos, com os olhos fincados e bem fincados naquilo que são os objetivos finais da nossa luta, afinal na luta do povo brasileiro. Não podemos, de forma alguma, deixar que eles voltem a se assenhorear do poder. Por isso, todas aquelas reformas que nos trouxeram até aqui têm de ser feitas doa a quem doer, rapidamente, com determinação. Agora não há mais lugar para "disse-me disse" ou "ainda não é possível" ou então que "o povo não está preparado" para enfrentar connosco os seus opressores de sempre. Agora, mais do que nunca, é necessário unirmo-nos com determinação, sem vacilações. Quero também deixar uma palavra ao nosso povo para que ele não se iluda mais uma vez com aqueles que se diziam seus amigos e protetores mas nada mais fizeram do que oprimi-lo e explorá-lo. Afinal, quem é e o que é esse Aécio Neves? Quem era o seu avô? É difícil defini-los porque em todas as circunstâncias estiveram ao lado da repressão deixando o povo à sua mercê, até mesmo os seus companheiros. O senador Tancredo Neves formou um partido de oposição a pedido do ditador de plantão Castelo Branco. Nunca defendeu esse partido nem os poucos membros que ousaram discordar da ditadura. Assistiu, assobiando para o lado, a toda a repressão que a ditadura impôs ao povo brasileiro. Parecia que tudo o que estava a acontecer no Brasil não era com ele. Por casualidade e com a ajuda de alguns membros do partido governamental-Arena-foi eleito no Congresso presidente da República. Aécio foi eleito governador de Minas no falso prestígio do seu avô, prestigio esse que não chegou agora para elegê-lo presidente da República. Ainda bem. O povo brasileiro tem memória. Estou feliz.

Carta aberta a uma candidata vencida à presidência do Brasil



 
Marina:

Ao ter conhecimento da tua existência e da tua militância senti que alguma coisa estava a mudar no Brasil. Pela 1ª vez na História do Brasil uma mulher, que não pertencia à burguesia dominante saía da obscuridade da sua terra de nascimento, no Norte do Brasil e, através do seu esforço, ia escalonando os degraus do poder até chegar à mais alta corte do Brasil -o Senado. O mesmo deslumbramento devem  ter tido outros brasileiros e nem sequer temi que as forças reacionárias que sempre dominaram e exploraram esse país te pudessem abocanhar. Afinal, tu fazias o teu caminho com o Partido dos Trabalhadores que, mesmo não sendo um Partido perfeito, se assumia como uma força transformadora do Brasil. Foi assim durante anos até que começaram a surgir notícias preocupantes. A aliança com os movimentos evangélicos mais conservadores não augurava nada de bom. Não é que eu tenha alguma coisa contra os evangélicos, qualquer que seja a sua denominação. Tive grandes amigos, até norte-americanos, crentes presbiterianos praticantes. Jamais poderei esquecer o Paulo Wright que foi militante de A.P. e da A.P.M.L. e foi vilmente assassinado em S. Paulo pela polícia de Fleury. Para mim e para muitos outros que participaram na luta pela democratização do Brasil ele sempre será herói. Depois chegou-me a notícia de que irias abandonar o PT e filiar-te no partido dos Verdes. Quero dizer-te que tenho um imenso respeito e admiração pelo trabalho dos partidos ecologistas, pois defendem como ninguém, o meio ambiente, a casa comum de todos nós. Defender o meio ambiente não é tarefa fácil, rodeados que estamos de predadores, os mais poderosos e contumazes. Eles são contra a vida. Todavia, no Brasil eles , os Verdes, têm sido ineficazes. Então perguntei-me o que irias fazer nesse partido, abandonando um outro que não sendo perfeito, pela sua estrutura e penetração tem condições objetivas de encaminhar soluções que ajudarão a transformar o Brasil positivamente. Mais, soube-se também que a tua discordância com o PT era mais um caso pessoal do que político. Pelo menos, foi isso o que chegou ao meu conhecimento. Disso não me admirei, até porque os partidos, principalmente nos partidos revolucionários a luta interna é o seu dia-a-dia. De outro modo, mergulham numa paz podre. O que não cabe num partido revolucionário é a luta pessoal sem princípios. Assim, soube, à partida, que ias perder esse confronto com a presidente Dilma, então apenas Chefe da Casa Civil. Conheci-a na prisão. Ela é uma mulher de armas. Determinada nos seus propósitos, firme nas suas convicções. Não é uma mulher qualquer. Ela dominava aquele coletivo de mulheres do presídio Tiradentes com um à-vontade incrível. Depois as nossas vidas separaram-se, ela foi para o Rio Grande do Sul onde estava preso o seu ex-marido e eu transferido para outros e outros presídios. Ela merece hoje, como antes, a minha confiança e irrestrita solidariedade.
 

Tenho-te ainda como minha companheira de caminhada revolucionária, como combatente do mesmo exército libertador. Se quiseres aceitar um conselho meu, e eu já sou velho suficiente para poder dar conselhos, (tenho talvez tantos anos de militância política como tu de vida), inicia, já, hoje, o caminho do regresso, voltando ao seio de onde saíste para que todos te possam de novo receber e abraçar como companheira do mesmo combate.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014


Te cuida Miró! Os quarenta ladrões estão à solta!

 

 
Conheci o Miró na prisão…
Depois de uma greve de fome de trinta dias, na penitenciária do Estado de S. Paulo, para onde cerca de trinta presos políticos foram transferidos por ordem do auditor militar, um tal Dr.Nelson, fomos depois enviados para o presidio do Carandiru. Nessa greve, foi importante a acção, entre outras pessoas, do Núncio Apostólico e do Cardeal Arms, Arcebispo de S.Paulo, e sobretudo, a decisão da ditadura, transformada em ordem para os médicos, de que nenhum de nós poderia morrer. Devo acrescentar ainda que a penitenciária de S. Paulo era um lugar destinado não apenas a guardar os presos até que eles cumprissem a sua pena, mas sim a destrui-los psicológica e moralmente. Ao entrar lá, perdia-se imediatamente a identidade e os presos passavam a ser conhecidos apenas por um nº que os acompanharia enquanto lá estivessem. A reclusão era total, quebrada apenas por uma hora de “banho de sol”, se essa fosse a vontade do Diretor. A mesma arbitrariedade em relação às visitas, obrigatórias por lei, mas que a vontade do diretor podia cancelar a seu belo prazer.

Chegados ao presidio do Carandiriu, o coronel da PM Fernão Guedes, seu diretor, reuniu-nos e disse-nos o seguinte:

-“Agora tratem de se recuperar. Os médicos do presidio estão a par da vossa situação. A minha função aqui, como Diretor, é apenas a de manter-vos presos, proporcionando-vos as condições necessárias para que a vossa vida corra normalmente, pois não é meu direito agravar as vossas penas, tornando-as mais difíceis ainda de cumprir. Esta norma serve para mim, para todos os responsáveis de pavilhão e para vós mesmos. Agora distribuam-se pelas celas como quiserem e organizem-se neste espaço. As vossas visitas e banhos de sol serão regidos pelas mesmas normas de todos os presos.”

Era a primeira vez, em todas as prisões por onde tinha passado, onde um Diretor afirmava tais coisas. Afirmou e sempre cumpriu. Quando ficámos sós, sentámo-nos numa sala grande, olhámos uns para os outros. Custava-nos a acreditar no que ouvíramos, mas diante da realidade, começámos a definir o que seria a nossa vida ali naquele presidio. Fizemos então uma lista de pedidos a encaminhar à Administração: receber livros, jornais e música; celas abertas durante todo o dia; possibilidade para praticar desporto e ainda de fazer artesanato-atividade importante para nós - não só porque nos mantinha ativos, mas também porque ajudava as famílias de alguns companheiros em dificuldade. Todas as exigências foram atendidas sem reservas.

Foi nessas circunstâncias que um dia chegaram ao presidio, durante uma visita, umas coleções de reproduções de pintores célebres, entre os quais Juan Miró, que quase ninguém conhecia, mas que agradou a  todos pela possibilidade de ser reproduzido em couro, pelo sistema  BATIK.

Comigo, foi amor à primeira vista, sempre que podia, levava o livro, onde estavam as reproduções das suas pinturas, para a cela e ficava a examiná-las horas seguidas, tentando encontrar nelas algum sentido. Depois via-me de olhos fechados a examiná-los e, aí, tudo se animava por detrás da minha retina. Comecei até a pensar que  Miró, antes de pintar os seus quadros, ficaria de olhos fechados  a olhar para o nada, esperando que alguma coisa acontecesse e então aconteciam aquelas pinturas. Mais tarde, li que Miró pintava as imagens que se iam construindo na sua cabeça quando estava de olhos fechados. É por isso que Miró foi meu companheiro de prisão e  continuou a acompanhar-me pelos muitos lugares por onde andei depois.

Vem isto tudo a respeito da polémica absurda que agora se levanta em torno das 85 pinturas de Miró, propriedade do estado português, melhor dizendo, de todos os portugueses, que o 1º Ministro e a horda de traficantes que fazem parte do seu Governo, querem vender para saldar parte de uma dívida insolúvel que eles mesmos fizeram.

Nem me admira muito que esta horda esteja tão determinada a vender aquilo que não é seu, uma vez que eles são capazes de vender a própria mãe e entrega-la ao comprador.

Muitas vezes fala-se com horror da Inquisição que queimava pessoas vivas, desenterrava cadáveres para os julgar e queimar na fogueira, queimava livros, desterrava pessoas, destruía obras de arte, era inimiga jurada da ciência, e durante mais de 300 anos reduziu este país à maior indigência intelectual e política de que se tem memória na História. Fala-se também com horror, das perseguições nazistas aos intelectuais, aos homens de cultura, aos artistas de todas as artes e também da queima pública de livros. Para um nazi bastava apenas um livro: Mein Kampf. Foi esse o mesmo argumento que levou o comandante muçulmano que conquistou Alexandria a mandar queimar a biblioteca de Alexandria, a maior, a mais rica e a mais famosa do mundo. Segundo ele, o mundo precisava apenas de um livro: O Corão.

Mas não precisamos de ir procurar argumentos a outros lugares. O que fizeram em Portugal as Mesas Censórias? Que comportamento teve em relação à cultura e à inteligência, o fascismo? E já depois do 25 de Abril, não houve aqui um Secretário de Estado da Cultura e um Primeiro Ministro que anatematizaram  a obra do único prémio Nobel de Literatura que Portugal Já teve, José saramago?

O que me preocupa, no caso da tentativa de venda fraudulenta das obras de Miró, é que se transforme apenas numa tempestade num copo de água com debates acessos no princípio, mornos, a seguir, e depois esfrie, animando a quadrilha do governo a uma nova tentativa, melhor preparada, e com sucesso quase garantido. No momento, a discussão está na rua mas ainda não chegou ao povo que, pressionado pelos muitos problemas que o afligem, não tem tempo nem cabeça para se preocupar com atentados culturais. É necessário que a indignação chegue às ruas e  que as  pessoas comuns entendam que um povo sem cultura, não é um povo, é, no máximo, um rebanho  de carneiros castrados que querem apenas comer. E é na transformação deste povo português que já deu provas em muitas ocasiões de ser capaz de tomar grandes atitudes, atitudes até extremas, de ocupar o seu lugar na História, que essa quadrilha do Governo e seus apoiantes, dentro e fora da Assembleia da República, quer transformar em rebanho castrado. Hoje vendem o Miró, amanhã o acervo do Museu de Arte Antiga, depois o Museu de Arte Moderna, logo a seguir o Jerónimos e Alcobaça a uma empresa hoteleira e não pararão até que nos transformem a todos em trabalhadores temporários com deveres e sem direitos. Sei do que estou a falar porque levo mais de 50 anos a lutar contra essas quadrilhas e a tentar contribuir para a construção de um mundo solidário, fraterno e humano, onde a cultura seja um bem primordial.

Alípio de Freitas

P.S. Sabe-se que o BPN teria no seu acervo não apenas 85 quadros do Miró mas sim 200 peças. O que é feito das 115 que faltam? Talvez a quadrilha que geriu o BPN a seu favor e faz de conta que nada disto é com ela saiba alguma coisa sobre o assunto…!

Se eu tivesse os 35 milhões de euros, eu mesmo comprava os 85 quadros de Miró e haveria de construir um Museu onde seria proibida a entrada a todos os membros da quadrilha do Governo e ainda a de todos aqueles que a apoiam dentro e fora do Parlamento…

 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013





O direito a um lugar para viver






O Senhor Presidente da República e o seu Ministro de Negócios Estrangeiros ficaram extremamente indignados com o desembarque em Portugal de 74 refugiados sírios, vindos da Guiné-Bissau. Também a TAP afinou pelo mesmo diapasão. Entre as muitas exigências colocadas pelo Senhor Presidente da República à Guiné-Bissau está a de que o seu Governo deve esclarecer em minúcia tudo o que aconteceu no aeroporto de Bissau. Não deixa de ser caricato que o Governo português exija de um Governo, que não reconhece, explicações cabais sobre um determinado assunto. A TAP, por sua vez, tomou a decisão que lhe parecia mais correta. Suspendeu os voos entre Guiné e Portugal, trissemanal, até que existam condições objetivas para o funcionamento da empresa. Convém porém dizer que a TAP não tem poderes de polícia para aceitar ou recusar passageiros porque estes já foram liberados pelas autoridades policiais aduaneiras. Essa atitude, quanto a mim, enquadra-se numa prespetiva xenófoba e racista, prespetiva essa que não levou em consideração o facto de os passageiros virem de um país em guerra civil. E já agora, sempre quero dizer que , no deve e haver entre Portugal e a Guiné-Bissau, o saldo é francamente desfavorável à Guiné. Durante séculos os portugueses caçaram, exportaram e venderam milhares e milhares de escravos arrancados à Guiné. Quando os portugueses finalmente resolveram estabelecer-se definitivamente na região, depois do tratado de Berlim, fizeram-no a ferro e fogo. Para a  Guiné  emigraram milhares de portugueses e aí construíram as sua vidas e as suas fortunas. Finalmente, quando os povos da Guiné decidiram tornar-se independentes e construir um país, Portugal moveu-lhe uma guerra durante 12 anos  que só terminou no 25 de Abril. Devem também os portugueses lembrar-se de que há milhões de concidadãos seus emigrados no mundo, de que houve milhares e milhares de portugueses sem papéis que saíram a salto em busca da liberdade e de melhores condições de vida. Hoje mesmo milhares de portugueses, jovens na sua maioria, abandonam este país em busca de uma vida melhor em muitos lugares do mundo.
Eu mesmo fui emigrante, emigrante clandestino, passei fronteiras com papéis verdadeiros e falsos, vivi anos na clandestinidade, fui exilado político e após dez anos de prisão achei-me na condição de apátrida. Só em 1984 eu recuperei a minha cidadania. Vivo agora em Portugal, onde trabalhei, pago impostos, voto e continuo a lutar por um mundo onde ninguém tenha de ser clandestino.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

http://www.youtube.com/watch?v=hfKU5pA-CRI&list=PL8A0CEC4F0A877D14



Paulo Wright-Amigo maior que o pensamento

Pediram-me amigos  e antigos companheiros de Santa Catarina um depoimento sobre Paulo Wright. Sobre ele e sobre os acontecimentos que levaram à sua morte às mãos da ditadura militar brasileira.
Conheci o Paulo em 1963, no escritório central da Frente de Mobilização Popular. Era ele então deputado estadual na Assembleia Legislativa de Santa Catarina e protagonizava, em termos políticos, os propósitos da Frente de Mobilização no tocante às Reformas de Base. Foi-me apresentado pelo Paulo Shilling, secretário executivo da Frete de Mobilização Popular que me sugeriu acompanhasse o Paulo a S. Catarina para aí, com ele e com outras lideranças políticas e sociais, dinamizar  as atividades da Frente.
Assim, percorri uma boa parte do Estado de S. Catarina participando de debates e comícios. Voltaria lá no começo de 1964 (fevereiro-março) para dar continuidade a esse trabalho e ajudar o Paulo a aprofundar o que ele mesmo vinha desenvolvendo havia anos. Regressei ao Rio de Janeiro depois do comício do presidente João Goulart, na Central do Brasil, pois a minha presença era requisitada com urgência. Foi durante essas visitas a Santa Catarina que comecei a construir com Paulo Wright uma amizade que dura até hoje.
Depois do Golpe Militar de 1964 encontrámo-nos no México onde repartimos amizades e experiências. Finalmente encontrámo-nos  em Cuba que era o objetivo fundamental da nossa saída do Brasil para o exilio. Terminada a missão que nos levara a Cuba, regressámos juntos  à América Latina, via Chile onde nos separámos,  regressando ele ao Brasil e viajando eu para a Argentina. Reencontrámo-nos em S. Paulo vários meses depois. Aí, por ele, soube de tudo o que acontecera na Ação Popular depois do regresso de Aldo Arantes e Betinho. Percebi imediatamente que a nova direção regressada do Uruguai, ainda que tivesse feito aprovar o documento -base que falava extensamente da luta armada, não só não tinha qualquer intenção de organizá-la, como se opunha a quaisquer contactos com as novas Organizações revolucionárias que estavam surgindo e que também se propunham fazê-lo. Mas a prova real disso mesmo tive-a quando depois de um longo e penoso trabalho, realizado por mim e pelo Mariano (Loyola), para encontrar um lugar para um campo de treinamento, me foi dito que não era essa a intenção da Organização e que se insistíssemos nesse caminho, o melhor mesmo era abandoná-la. Falei com o Paulo sobre isso, uma vez que ele era no organigrama da AP o responsável pela organização da luta armada. A única reação que dele obtive foi a de um grande desalento e deceção. Devo esclarecer, porém, que o Paulo sempre defendeu que quem deveria ocupar-se dos assuntos refentes à luta armada era eu, uma vez que já tinha  experiências nesse campo. Fomo-nos encontrando, vez por outra, aqui e ali, sem nos perguntarmos muito sobre aquilo que cada um estava a fazer. Algum tempo depois deixei S. Paulo definitivamente e embrenhei-me por todos os lugares do Brasil onde houvera movimento camponês organizado e sabia que havia companheiros que esperavam apenas uma palavra de ordem. Tudo isso porém, à revelia da Direção da Ação Popular que permanecia em S. Paulo, esperando sentada que a ditadura caísse. Foi nesse tempo que na última reunião em que participei me foi endereçado o convite para viajar para a China, convite que eu recusei pois não tinha outra  finalidade mais do que afastar-me do Brasil. Com o Paulo fui sempre mantendo contactos  mais servindo estes para aprofundar a nossa amizade pessoal do que para discutir questões político-ideológicas. Ele estava profundamente magoado com tudo o que ia acontecendo à sua volta, e eu não queria, de modo algum, piorar a situação com que ele se debatia. A certa altura, tive a impressão, repito, a impressão, de que o único apoio e amizade que ele tinha dentro da organização era eu, tal era o desânimo que se lhe podia ler na alma.
Não faltou quem estranhasse, dentro e fora da Ação Popular, que eu não tivesse participado da reunião que levou ao seu "racha" e que desembocou na AP-ML liderada por Jair Ferreira de Sá  e  no Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT), liderado pelo denominado "grupo do Rolando"(Vinicius Caldeira Brandt). A minha ausência justifiquei-a a mim mesmo por três ordens de razões: a primeira porque a reunião era tão somente um ajuste de contas entre o grupo do Jair (os militantes que tinha estado na China durante a Revolução Cultural) e os antigos dirigentes da Ação Popular que, vindos do Uruguai, usurparam o poder depondo a Direção então existente no Brasil; a segunda, era que nessa reunião participavam o Paulo Wright e o José Novais (líder camponês do nordeste), que eu sabia ficariam com a AP-ML, mas de quem me era absolutamente penoso  separar, tal era a nossa amizade  e identidade ideológica; a terceira razão era o facto de  a AP-ML tal como a antiga AP ser incapaz de compreender a necessidade e urgência de fazer confluir a esquerda revolucionária num único projeto que fosse credível e eficaz.
O José Novais encontrei-o casualmente já depois da Amnistia no aeroporto de S. Paulo, sendo ele então militante e dirigente do Partido dos Trabalhadores. O nosso abraço sem palavras e só com lágrimas ressarciu-nos do tempo perdido. Do Paulo fui sabendo notícias, cada vez mais esparsas, até à da sua prisão e desaparecimento. A ele chorei-o sozinho.
Muitas vezes quis acreditar que no final dos tempos  justiça se faria a todos aqueles que amaram os seus irmãos a ponto de darem por eles as suas vidas. Mas esse é um privilégio dos crentes. Eu prefiro ficar-me  com uma história que um dia, sendo eu ainda menino, me ensinou um velho lutador das causas do povo. Para lá do imaginário das pessoas e para lá de tudo o que as crenças ensinam, existe uma constelação, que os astrónomos não conhecem nem identificam - a constelação da Utopia - onde todos aqueles que lutam toda a sua vida por um mundo só de irmãos se transformam em estrelas quando partem da terra , cumprida a sua missão. É para lá que eu olho, seja qual for o tempo, sempre que quero recordar o Paulo Wright, o José Novais, o Mariano, o Raimundinho, o Augusto do Nascimento,  o João Pedro Teixeira, o Marighella, o Lamarca, o Frei Tito, o Câmara Ferreira, o José Porfírio, o Epaminondas, o Massena e os mil e mil outros que lutaram todos os dias e cujas vidas foram ceifadas pelo capitalismo, pelo latifúndio, por ditaduras cruéis. Neste momento em que a cegueira física me jogou num labirinto do qual sozinho jamais saberia sair e em que algumas vezes, mesmo com a meta à vista, a vontade de existir é quase insuportável, é deles, de todos eles e muito especialmente do Paulo que me socorro para continuar. Obrigado, Paulo.
É importante que se recorde aqui que a opção do Paulo Wright  pela Revolução não só foi uma opção de alto risco como lhe custou inúmeros sacrifícios e incompreensões. Mas essa escolha começara a delinear-se já antes de 1964 quando quase solitariamente, como deputado estadual, começou a interessar-se pelas organizações sindicais de trabalhadores e pescadores, transformando a sua opção evangélica numa força combativa  permanentemente ao serviço dos pobres e dos trabalhadores. Depois de 64 não teve dúvidas e dividiu com a sua família a quem não deu a assistência que gostaria de ter dado, os custos de uma clandestinidade difícil. Como militante revolucionário nunca discutiu cargos na hierarquia das organizações a que pertenceu, mas sempre esteve disponível para o cumprimento de todas as tarefas de que o incumbiram. Viveu pobremente, às vezes em quase situação de miséria como alguns amigos comuns me reportaram. Foi expulso da sua Igreja como se de um herege se tratasse  e só bem tardiamente essa mesma Igreja o readmitiu atribuindo-lhe o lugar que era seu por direito. Também a Assembleia Legislativa do seu Estado a quem ele prestigiou com a sua luta, o expulsou. Tardou a reconhecer-lhe os seu méritos de cidadão, cidadão empenhado e lutador das verdadeiras causas do povo. Vale, porém, que do coração e da memória  dos seus familiares, amigos e companheiros ele nunca esteve ausente.
José Afonso foi o maior cantautor revolucionário de sempre da língua portuguesa. Valendo-me da amizade que nos unia quero deixar nesta crónica  uma das suas canções, para mim, a mais simbólica  e representativa de todas as que escreveu,  como se fora uma homenagem ao Paulo Wright.    

"Utopia" de Zeca Afonso
Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria

Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria
Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa

Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?