Carta Vária, porquê?



sexta-feira, 1 de março de 2013



Segurança de quem ou contra quem?

Seguramente nenhum membro das Forças de Segurança nem mesmo o Ministro que lhe dá ordens e as tutela lerá aquilo que, abaixo, vou escrever. Não importa, escreverei assim mesmo.
Não se pede às Forças de Segurança que se associem às Manifestações populares, que em todo o país, se vão realizar contra  a TROIKA e este Governo anti-popular que ela, a Troika, mantém aqui, em Portugal, a prazo.
Aliás se as Forças de Segurança( policiais e outros) não estivessem intoxicados por uma Doutrina de Segurança que coloca o Estado acima do Povo, de um Estado que apenas respeita os interesses da burguesia e do capital financeiro, não fosse essa intoxicação, as Forças de Segurança participariam das Manifestações de uma forma inequívoca  demonstrando que elas- as forças e segurança-também são povo.
Afinal quem vai participar nas Manifestações? A TROIKA? Os banqueiros? Os ministros? Os capitães da Indústria? Os marajás do comércio? Os traficantes dos off-shores? Os administradores das parcerias público-privadas?
Não, nenhum desses senhores participará de qualquer Manifestação. Quem lá estará serão trabalhadores, empregados e desempregados, jovens licenciados, com um pé na imigração, reformados a quem o estado assaltou as pensões, ex-classe média hoje na indigência, portugueses e outros sem abrigo, sem saúde, sem escola, sem nada daquilo a que qualquer ser humano tem direito. A Grândola cantada por esses milhares e milhares de vozes é o seu grito de guerra, duma guerra que nem o tempo nem a violência conseguirão vencer. É um gesto de guerra e de triunfo.
E agora alguma perguntas incómodas para os membros das Forças de Segurança:
Quantos de vós sois filhos de banqueiros, ministros ou de latifundiários?
Quantos de vós morais na quinta da Marinha ou nos apartamentos sumptuosos de Cascais ou da Expo
Quantos de vós frequentais os restaurantes da moda, aqueles onde se cruzam banqueiros, ministros e traficantes?
Quantos de vós sois presença habitual  das vernissages, dos desfiles de moda e dos avant-première de filmes ou de peças de teatro?
Quantos de vós passais férias com as vossas famílias no estrangeiro, em resorts paradisíacos, fazeis safaris milionários ou dais a volta ao mundo em paquetes de luxo?
Os vossos carros, se é que os tendes, são aqueles top de gama ou de segunda ou terceira  mão e cuja cilindrada não ultrapassa os 1100c.c.?
Quais são os vossos salários? vinte e cinco mil euros, dez mil,  cinco mil ou menos de mil?
Poderia fazer-vos muitas mais perguntas mas não acho necessário. Respondei em consciência apenas a estas e depois decidi de que lado ficar, não apenas na hora das manifestações , mas sempre. Se  do lado de quem vos oprime e manda se do dos vossos iguais, pais e irmãos, que, apesar de tudo, sempre dividem convosco o pouco que a TROIKA lhes deixa.
O povo é quem mais ordena

Tenho estado muito atento a tudo o que se tem dito e escrito sobre a manifestação popular do dia 2 de Março, contra a TROIKA, e ainda aos comportamentos dos políticos e seus próximos frente ao seu «enfrentamento» com a canção de Zeca Afonso Grândola, Vila Morena. Nada que me tenha surpreendido, uma vez que a maioria, repito, a maioria dos políticos da nossa praça e também a sua corte de seguidores já fizeram várias, muitas revisões do 25 de Abril. A situação é tão caricata, que hoje todo e qualquer bicho careto se diz herdeiro do 25 de Abril. A direita, a esquerda, o centro, os «jotas», os boys, os revisionistas, os «entreguistas», os traficantes de todas as coisas e influências e sei lá que mais, todos se apresentam como defensores do 25 de Abril, sobretudo dessa democracia que aí está e que outra coisa não é mais que uma «bastardia» do 25 de Abril. O povo tem de sair de novo à rua. Não nos serve uma democracia que ande de braço dado com banqueiros corruptos e ladrões, não nos convém uma democracia que, com políticos a soldo e de saldo, usurpe os direitos do povo e destrua toda a sua esperança. Não nos convém uma democracia que se propõe matar de fome, desprezar e abandonar os seus velhos e convida os jovens a emigrar, para que as poupanças do seu trabalho, em terra estranha, sustentem os que cá ficaram por já não poderem emigrar. Não nos convém uma democracia onde a justiça e a iniquidade se confundem, onde a prepotência substitui a lei, onde se penaliza quem trabalha, quem é pobre, quem é jovem, quem é doente ou quem é velho. Não queremos uma democracia guardada, protegida e sustentada por mercenários. Queremos que as forças de segurança sejam constituídas por pessoas livres, cidadãos exemplares que defendam o povo e os seus legítimos interesses. As forças de segurança terão sempre de ter presente nas suas mentes que são constituídas por filhos e filhas do povo, que quem lhes paga e garante a sua existência e eficácia é o povo trabalhador e não os banqueiros, a TROIKA ou aqueles que em nome da paz e da segurança destroem países e governos, rapinam recursos e humilham, com os tacões dos seus mercenários, quem se atreva a contrariá-los. Queremos forças de segurança que no dia do seu juramento se comprometam apenas e tão somente a servir com lealdade o seu povo.
Sou abertamente favorável a todas as manifestações em que o povo expresse a sua vontade. Ninguém, quer se trate de organizações ou pessoas, expressa hoje em Portugal a vontade do povo. Nem os partidos políticos, qualquer deles, nem a Igreja, nem um cidadão ou um grupo de cidadãos organizados se pode armar em representante ou porta-voz do povo. Mas é bom que se comece a pensar nisso. Sempre haverá cidadãos descomprometidos com o pântano em que se transformou a vida política portuguesa, sempre haverá alguns cidadãos cujo presente e passado os credibiliza para a urgente tarefa de tirar este país da servidão. E não me venham os «democratas bunda suja» que por aí se acotovelam dizer que o meu apelo à organização e acção do povo, tendo à frente quem o ajude na tarefa de construir outro país, tem cheiro de totalitarismo ou coisas que tais. Disso e de falsas democracias como esta em que vivemos e que não passa de um pântano fétido, disso entendo eu, que durante uma boa parte da minha vida estive exilado, vivi na clandestinidade, fui combatente revolucionário, sobrevivi à tortura e somente ao fim de dez anos de vários presídios fui posto em liberdade. É esta memória de mais de sessenta anos que se cravou em mim como uma cicatriz profunda, que me ensinou a «livre pensar», estar atento ao que se passa no mundo e sempre presente em todas as manifestações, apesar da minha cegueira quase total. Portugal não precisa de mudanças mais ou menos coloridas como aquelas de que os papagaios da Assembleia da República tanto palreiam. Não. Portugal precisa urgentemente de resgatar as promessas de Abril que, mal despontaram, logo começaram a ser roubadas pelos ladrões do costume. O 25 de Novembro foi o acto final de uma revolução que não houve e o primeiro da tragédia em que hoje estamos mergulhados. Porquê? Porque o Presidente da República e o primeiro-ministro saíram como exilados de luxo para o Brasil, os ministros desapareceram do país sem que ninguém os incomodasse e foram viver de rendimentos no estrangeiro, os membros da PIDE foram soltos sem julgamento e mais tarde alguns deles foram condecorados por serviços prestados à nação, os banqueiros, capitães de indústria e latifundiários acoitaram-se em países vizinhos e no Brasil, para depois regressarem e serem indemnizados por perdas que nem haviam tido, no Ministério de Negócios Estrangeiros, que durante a ditadura serviu como agente da propaganda fascista nas colónias de imigrantes portugueses, não houve um único saneamento, os juízes e os tribunais plenários, que agiram como juízes torcionários do poder fascista, passaram directamente desses tribunais para os tribunais comuns em todos os níveis. Ninguém foi responsabilizado ou condenado por qualquer crime cometido contra o povo. Seria um rosário imenso enumerar tudo aquilo que a Revolução de Abril não fez, vá-se lá saber porque razões, mas serviu para organizar a contra-revolução.
Provavelmente a maioria daqueles que organizam todas estas lutas que se vêem por todo o país e que escolheram Grândola, Vila Morena como seu grito de guerra nem sequer eram nascidos no 25 de Abril. Pouco importa. Eles ouviram o apelo da história e do povo. E ainda bem, porque se eles não tivessem ouvido esse apelo, Portugal e os portugueses possivelmente passariam à história das coisas não acontecidas, que uma bruxa má chamada TROIKA teria feito desaparecer num golpe de mágica.
Vamos lixar a TROIKA!!!

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013




Chegou Beppe Grillo!

Há muitos, muitos anos que não se via a Europa tão incomodada como agora, após o regresso, em força, à cena política italiana de Sílvio Berlusconi. Nem a tomada de poder por Mussolini, na Itália, nem a de Hitler, na Alemanha, incomodou tanto os líderes europeus como o regresso de Il Cavaglieri ao pódio da política. Por que será que Berlusconi incomoda tanto os banqueiros, os colunistas e luteranos e seus guarda-costas do Norte e centro da Europa, os cardeais e monsenhores "donatários" e gestores da política e dos negócios dos países do mediterrâneo, neles incluindo Portugal?
Afinal o que se reprova em Berlusconi? O facto de com 12 anos de idade ter recusado a mesada do pai e ter vivido do seu próprio trabalho? Se o trabalho ainda fosse um valor respeitável, o que se faria dos jotas e dos boys que, logo que podem se apegam ao corpo dos partidos políticos e do aparelho do Estado como sanguessugas? O ter sido cantor em barcos de recreio? Há quanto tempo é que a quase totalidade dos políticos outra coisa não faz mais do que  dar música aos seus eleitores? Ter sido o braço direito de Bertino Graxi, um primeiro ministro socialista italiano, amigo do Sr. Mário Soares, que morreu no exílio, para não morrer na prisão? Por ter levado o AC Milan ao topo do futebol italiano europeu e mundial? O Barcelona, o Real Madrid, o Manchester United  ou o Bayern nunca protestaram por isso. Será então que toda esta aversão decorre do facto  de ele se ter tornado o homem mais rico de Itália? Bem, se os políticos europeus quiserem entrar por aí vão ter de pensar muitas vezes antes de o fazer  e os seus áulicos arriscam-se  a queimar a língua. Deixemos de fora a Grécia, a Espanha, a França, a própria Alemanha e quase todos se  não todos  os países que chegaram à Europa depois da queda do MURO: Deixemos tudo isso de parte e fixemo-nos  pois em Portugal. Quem poderá prestar contas  do tráfico de dinheiro que chegou do exterior para os partidos políticos portugueses? Quem? E das falências fraudulentas e dos contratos viciosos e das luvas das nacionalizações e dos dinheiros chegados ou não da UE e dos dinheiros evadidos para os paraísos fiscais,  e do tráfico de armas e da droga e dos trabalhadores ilegais e da escravatura sexual?  E será que alguém se dispõe a falar de bancos falidos e nacionalizados, de "transferências" de ministros de estado para empresas privadas nacionais e estrangeiras?
Se o presidente da república fosse o que ele diz que é e não o que se sabe que é de verdade faria , ao menos, uma parte daquilo que o Papa Bento XVI fez: ia-se embora, mesmo sem dizer porquê, já que a dignidade lhe falece para tanto. Mas, não. Ele ficará, porque na representação pífia da farsa do poder ele é o ator principal.
Mas é muito fácil entender porque os políticos europeus e os seus papagaios de pirata falam tanto e parece preocuparem-se  com o Cavaglieri. E digo parecem, porque a sua preocupação verdadeira é o com o artista de profissão palhaço que atende pelo nome de Beppe Grillo, que não é deputado nem senador, mas deu corpo a um  movimento popular denominado "Cinco Estrelas. Na verdade este movimento, acusado de anti-democrático, anti-sindical, anti-partidos, anti, anti, é anti-capitalista e anti burguês sobretudo nas suas formulações  mais refinadamente elaboradas.
Este movimento "Cinco Estrelas" pôs os verdadeiros donos do poder e os políticos seus lacaios de calças e calcinhas na mão. Começo a desconfiar até que a Europa civilizada e asséptica já deixou de o ser pois o fedor da merda e do mijo começa a fazer-se sentir
Mas que fez de mau ou de tão mau o "Cinco Estrelas"  de Grillo para que luteranos, calvinistas, huguenotes, social-democratas, socialistas, comunistas, líderes sindicais perpétuos, pais da pátria, filhos da outra,  e sei lá quem mais para que estejam tão acirradamente contra ele, numa cruzada que só tem paralelo com a organizada e desencadeada contra os cátaros?!...
Quanto a mim nada demais. Talvez tenha pecado por vir tarde. Mas a história e a guerrilha têm uma lei inviolável, que é parte do segredo do seu sucesso: quem marca o andamento da marcha é o último guerrilheiro da coluna. Pois bem, o "Cinco Estrelas" juntou tudo o que era valores para a burguesia e o capitalismo e jogou-os no lixo, preparando-se então para uma sociedade nova a partir da vontade expressa, de modo permanente, pelo povo.
Afinal a pergunta que Grillo fez aos italianos (aos pobres, aos desempregados, aos reformados, aos sem escola,  aos sem futuro, aos doentes sem hospitais, aos sem recursos, dependentes da solidariedade e da caridade pública, aos sem poder, apesar do voto, aos que vão emigrar mas gostariam de ficar, podemos fazê-la nós a nós mesmos: queremos mudar ou deixar tudo como está? Uma boa parte do povo Italiano optou já pela mudança.
De que nos serve uma democracia que não garante trabalho, escola, saúde, justiça, progresso, cultura, respeito pela política empenhada?
Para que nos serve um presidente da República que,  ainda que eleito, por uma minoria, se diz representante de todo um povo mas não passa de um mistificador, de um Al-Babá, protector de 40 ladrões , de um santo de pau oco, como diz o ditado popular.
Para que nos serve uma Assembleia da República  onde somente se tecem mentiras e embustes, apadrinham interesses mesquinhos e mal sãos, onde o povo é apenas um substantivo comum sem qualquer relação com a realidade! Não seria má ideia fechar aquele circo, tendo porém cuidado de entretanto mandar empalhar alguns daqueles símios e papagaios que agora lá andam à solta palrando e fazendo momices. Serviriam para o departamento jurássico do Museu da História Natural.
Para que nos serve uma democracia que, há pelo menos quarenta anos( as excepções contam-se pelos dedos das mãos) nos força a aceitar governos onde os Passos Coelho, os Sócrates, Os Durão Barroso, os Relvas, os Santana, os Gaspar, os Jamais, os Jorge Coelho, os Cavaco, os...têm sempre uma cadeira disponível para sentar os ministeriais rabos.
Não , não  é isso o que os portugueses e os outros povos do sul da Europa querem. Nada disso. Já estamos fartos e, mais dia menos dia, começamos a partir a louça. O que mais queremos é uma democracia emanada do povo mas amplamente participada e sempre vigiada pelo povo. A vara do poder, assim como a da justiça têm de estar sempre iniludivelmente nas mãos do povo.
O poder e a lei são um património inalienável de todo o povo e somente  em seu nome  e com o seu mandato expresso poderão ser exercidos.

O povo é quem mais ordena!

sábado, 15 de dezembro de 2012






 

A solução final

Quando tudo parecia estar a correr bem, eis que se levanta um burburinho à volta dos lares de idosos. Choveram de todo o lado denúncias escandalosas que referem coisas e atitudes abjectas e uma desatenção criminosa por parte do Estado, que tendo obrigação de fiscalizar, não fiscaliza ou fiscaliza mal.
Que chatice dos diabos, devem ter pensado ou dito Coelho e Portas. Já não bastam os estivadores, aparecem agora os Velhos. Por que não morrem todos?! Os Velhos, claro, que os estivadores ainda precisamos.
Como o Estado não tem recursos para gerir todos os lares que por aí pululam e os novos que precisavam de ser criados para os mais de 38000 velhos que carecem  de internamento, só uma Solução Final pode resolver o problema. E não se finjam de espantados ou surpreendidos, porque afinal essa é já a solução que o governo vem aplicando quando lança no desemprego milhares e milhares de trabalhadores, quando diminuiu drasticamente as pensões sociais, quando põe na rua milhares de famílias, quando afirma que a emigração é o caminho a seguir por milhares e milhares de jovens.
Além disso a Solução Final não foi uma inovação de Hitler ou Eichman. Ela faz parte do arsenal do capitalismo que a pôs em prática em muitos lugares do mundo e em diversas épocas da história. Basta relembrar o genocídio que a Coroa Inglesa praticou contra os índio norte-americanos, espalhando entre eles o vírus da varíola, ou os que espanhóis e portugueses praticaram na América Latina, ou ainda  a tragédia da escravatura negra que foi um dos maiores negócios do capitalismo europeu. O genocídio ou do etnocídio são uma prática comum e corrente do capitalismo que não se encerrou com a escravatura mas se perpetua até aos nossos dias em distintos lugares do mundo sempre  que "as necessidades do progresso" capitalista o exigem.
Vamos lá Coelho-Portas, decidam-se logo e resolvam ao menos durante um tempo o problema dos lares de idosos. Procurem logo o vosso Dr.Mengel e o vosso Eichman. Candidatos a Goebels há muitos.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012



Prémio Nobel da Paz, porquê?


Confesso que ainda não consegui entender porque motivo o Governo de Passos_Portas não se assume como mais um peão no tabuleiro do xadrez capitalista que domina a União Europeia. Preferem esconder-se atrás de um suposto projeto social europeu, um projeto social gerido pelo capital financeiro, pelos banqueiros, pelos capitães da industria, pelos fomentadores de guerras, pelos traficantes de toda a espécie de tráfico, pelos operadores em paraísos fiscais, pelos genocidas sociais.

Apesar disso e por uma pretensa luta em favor da paz, a União Europeia atribuiu-se o prémio Nobel da Paz. Ouvi atentamente o discurso do senhor  que esteve a justificar o galardão, mas em momento algum ele se referiu à destruição da Jugoslávia, à criação de um Estado de traficantes, o Kosovo, à transformação dos antigos países do leste em colónias alemãs e espaços de imensas desigualdades sociais. Também não falou da colaboração ativa da Europa na destruição do Iraque, da Líbia e ainda da sua presença no Afeganistão. E também o dito senhor não disse uma palavra sobre o permanente apoio da Europa a Israel na sua luta contra o povo palestiniano. Será que a publicidade do holocausto e seus horrores,  impede que a Europa recorde  a perda dos milhões de europeus, vítimas da mesma guerra e da ideologia que a provocou? E por que será que o dito senhor  se "esqueceu" de lembrar os milhões de desempregados europeus, da quebra das prestações sociais, do ataque sistemático aos direitos adquiridos dos trabalhadores e dos cidadãos, ao aumento da xenofobia? Somente porque não houve mais guerras entre a França e a Alemanha? Permita-se que a Alemanha volte a ser uma potência militar e logo se verá até onde chegam os seus "bons propósitos". Pois bem, é nesta Europa galardoada pelo Nobel da Paz que Portugal se insere, fechando os olhos às guerras políticas , sociais, económicas, culturais, civilizacionais  que, em todo o sul mediterrânico, se travam. Assim, o  Governo Coelho-Portas não consegue enxergar o que está á sua frente nem o antes dele. E qualquer membro deste mesmo Governo fica extremamente desagradado quando alguém, jornalista ou não, lhe recorda as realidades que ora vivemos como se elas não existissem.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012



                   A Utopia tem nome-Niemeyer

Desde ontem pela tarde que a Comunicação Social vêm confirmando aquilo que já se esperava, a morte de Niemeyer. Amigos, conhecidos, biógrafos, admiradores todos têm falado dele ou melhor dizendo, da sua obra como arquiteto. Mas pouco se ouve sobre a sua personalidade ou sobre a sua vida, sobre o cidadão empenhado, sobre o militante comunista. Parece querer esquecer-se que toda a obra de Niemeyer tem a marca indelével da sua ideologia. Não fui seu amigo , não privei da sua intimidade, mas conhecia-o o suficiente para ter por ele uma admiração que me acompanha há mais de 50 anos. Onde o conheci? Não me recordo, mas pode muito bem ter sido no seu atelier de Brasília, quando aquilo era apenas um inóspito "cerrado" onde uns quantos sonhadores já vislumbravam uma cidade capital de um novo país que estava a nascer, centro do mundo, talvez. Pode também ter sido no Rio de Janeiro, na sua casa, levado pela Olga Vierjawski, uma arquiteta sua e minha amiga. Onde foi? Não importa. Importante foi tê-lo conhecido. Ele faz parte da pequena galeria de homens grandes que conheci e com quem privei ao longo da minha vida.
Agora que ele partiu, há-de falar-se e repetir-se até á exaustão, tudo o que já antes se disse sobre a sua obra: pode até acontecer que se descubram nela coisas e intenções que o próprio nem viu nem teve. Eu, porém , que não entendo mais de arquitetura do que qualquer simples mortal, quero é falar da sua solidariedade sempre abrangente, material quando alguém precisava de ajuda, também política durante todo o tempo que vigorou a ditadura militar. Essa mesma ditadura militar que durante vinte anos substituiu a lei pelo arbítrio, cassou direitos políticos, sequestrou, prendeu, torturou, assassinou e fez desaparecer milhares dos seus opositores, foi impotente diante de NIemeyer, ainda que o tenha arrolado no Processo do Partido Comunista Brasileiro e tenha jogado no lixo alguns dos seus projetos para Brasília. Mas nunca foi capaz de impedir a sua solidariedade ativa aos que lutaram contra a ditadura, mesmo nas prisões, onde visitava presos políticos,  jamais se atreveram a cassar-lhe os direitos políticos, o direito de ir e vir , de entrar e sair do Brasil.
Comunista desde muito jovem, militante ativo no partido Comunista  (condição que nunca escondeu) quando um grupúscolo de "bastardos" decidiu extingui-lo, tendo até o seu secretário-geral, Roberto Freire, se apropriado do símbolo do partido, Niemeyer e outros companheiros seus refundaram-no e, em Tribunal, recuperaram o símbolo partidário- a foice e o martelo.
Num tempo em que o enriquecimento fácil e até criminoso, num tempo em que a honestidade pessoal passou a ser o opróbrio, num tempo em que os tostões viraram milhões, em todo esse tempo, Niemeyer recebia  como primeiro e principal operário da construção e manutenção de Brasília, o salário mínimo nacional.
Evidentemente que será impossível, mesmo que Brasília deixasse de existir, esquecer Lúcio Costa, Burle Marx e Óscar Niemeyer. Todos têm lá a sua marca pessoal. Muitas marcas. Mas há duas, ambas de Niemeyer, que sobressaem sobre todas as outras: a figura dos "candangos" na Praça dos Três Poderes, como que a afirmarem que sem povo não há poder e a sombra da foice  e do martelo, que todos os dias, ao sol posto, a estátua de Juscelino(JK) do alto do seu memorial, projeta no chão de Brasília. A arquitetura e o urbanismo de Brasília são pormenores. O importante é a marca ideológica de quem a projetou.
Obrigado , mestre, por Brasília e tudo o mais.
Lisboa, que há cinquenta anos, tem sido submetida a uma fúria urbanicida imparável, deve ser a única cidade do mundo onde um projeto de Niemeyer começado a nascer morreu. Ainda quando o ex-presidente Jorge Sampaio era presidente da Câmaras de Lisboa, Niemeyer projetou, gratuitamente, a sede de então criada Associação Luso-brasileira. Estava-se no inicio da grande emigração brasileira para Portugal. Arrecadou-se algum dinheiro, juntaram-se esforços e a obra começou a nascer onde existira o Palácio dos Alfinetes, na zona oriental de Lisboa. Mas um dia tudo parou por falta de recursos e o projeto acabou nos arquivos insondáveis da Câmara de Lisboa. Até hoje. Muitos esforços foram feitos para levar esse projeto até á sua conclusão, mas todos se mostraram inúteis. E não creio que a situação mude, seja qual for a Câmara de Lisboa. A esta cidade não fazem falta projetos de Niemeyer. Ainda se fosse mais um silo para automóveis ou um túnel ou uma rotunda. Afinal o Marquês de Pombal e o Eng.Duarte Pacheco já não andam por cá. Agora a Lisboa bastam os empreiteiros e os "patos bravos". Lisboa pode passar muito bem sem Niemeyer.