Carta Vária, porquê?



sexta-feira, 27 de abril de 2012




À memória do Miguel, um homem bom

O Miguel era um homem bom, integralmente bom porque estava sempre disponível para o Bem. Ou como diria Brecht , um imprescindível porque lutou todos os dias da sua vida.

Francisco, quero que sejas portador dos sentimentos que se abateram sobre mim pela perda do Miguel. É bem verdade que todos estávamos à espera que a sua partida se desse mais dia menos dia .Mas  a verdade é que nos costuma enganar.

A morte do Miguel pesar-me-ia sempre , mas pesa-me mais , porque o nosso encontro não foi uma abertura de alma imediata. Tanto eu como ele trazíamos alguns preconceitos mútuos. Era natural que isso acontecesse, até porque tínhamos percursos políticos  e pessoais diferentes. Mas eu, e falo só por mim, resolvi proceder como um provador que quer ter uma opinião sobre um vinho tido como famoso.

Segui então as normas que o meu avô paterno, homem de muitos saberes de experiência feitos, me ensinara. Balancei o copo bem devagar, aspirei depois o seu perfume , deixei-o repousar e então pus na boca um pouco desse vinho. Mastiguei-o , insalivei-o bem e depois bebi-o.

Foi assim com o Miguel. Fomo-nos conhecendo, fui gostando dele e tornámo-nos companheiros  de viagem.

Companheiro de viagem. Às vezes nos encontrávamos. Cá dentro e lá fora  Sempre com a mesma obstinação e determinação em  mudar o mundo.

Tê-lo conhecido, tê-lo tido como companheiro, foi um extraordinário privilégio.

Agora outros tomarão o seu lugar porque o Miguel, que era um semeador, se  transformou em semente. Miguel Semente.

Francisco, diz isso a todos os companheiros: o Miguel agora é semente.


quarta-feira, 14 de março de 2012

SÍRIA - Ou quem põe o guiso no gato?

Cidade antiga de Bosra- património da humanidade



Uma fábula muito antiga conta que os ratos, cansados ou desesperados por serem caçados por um gato, resolveram pôr-lhe um  guiso no pescoço, para que ele não mais os pudesse surpreender. Todos estavam de acordo com a decisão. Foi então que um rato mais experiente perguntou: - mas , quem põe o guiso no pescoço do gato?
É à espera desta resposta que se encontram o imperialismo norte-americano, a NATO, a Liga Árabe, a Al-Qaeda, e todos os "ditos amantes da liberdade e defensores da democracia". A cada dia que passa, acham mais urgente pôr o guiso no pescoço do gato. Mas quem se atreve a pô-lo?
Para que não restem dúvidas sobre a minha posição pessoal e política a respeito do que deve ou não deve, pode ou não pode fazer-se em relação ao conflito sírio, quero deixar bem claro que não estou de acordo com o regime sírio, com a ditadura pessoal dos Assad (pai e filho) e também com o partido Baas (partido pan-árabe socialista).Igualmente me distancio da autodenominada resistência síria, quer pelos verdadeiros objetivos que a movem, quer ainda pelos apoiantes que a sustentam, países e organizações belicistas.
A Rússia e a China, ainda que por razões diferentes, obstaram a que os planos  da NATO, dos EUA e de Israel se concretizassem. A Síria, como um gato de guizo no pescoço transformar-se-ia num animal doméstico. A Rússia, se outras perdas não tivesse, perderia a sua base naval no mediterrâneo oriental, de onde vigia as atividades da NATO na região, perderia também um comprador de armas e veria ameaçado o seu projeto de voltar a ser uma grande potência militar a nível  mundial e veria diminuir ainda o poder que tem nas Nações Unidas. Já a China, que não tem interesses militares e económicos na região, arriscava-se a perder prestigio nas repúblicas muçulmanas da Ásia Central, prestigio e poder negocial, abriria mão, sem quaisquer vantagens, da oportunidade de exercer a sua diplomacia, numa área do mundo, hoje fulcral para a paz mundial.
A grande questão, aquela que terá de ser respondida é o que acontecerá na Síria, quando os problemas atuais, estiverem ou parecerem estar resolvidos. É que a Síria não é um país qualquer. Não! Esse espaço político e físico que hoje se denomina Síria e Líbano, ao longo de centenas e centenas, milhares e milhares de anos de história foi o berço de civilizações, o nascedouro de múltiplas culturas, o campo de batalha onde se enfrentaram e fundiram e multiplicaram  religiões que, depois de enraizadas, deram origem ao colorido e contrastante tecido cultural e religioso atual.
Por isso, quem se propuser "implantar a democracia" na Síria, tem de estar preparado para a eventualidade, mais que provável, de transformar esse projeto numa guerra sectária com efeitos devastadores em toda a região. Sendo assim, só a negociação paciente, justa e laboriosa, balsâmica, pode trazer a paz à região, sarando feridas profundas, apagando ódios e injustiças antigas e atuais. E, em jeito de reflexão desta "crónica" , quero recordar um preceito antigo, mas sempre atual: a paz é fruto da justiça.

terça-feira, 6 de março de 2012

Esta estória que vos conto: Santa Cruz, na Fortaleza

Meados de 1977.Talvez Maio, Junho ou Setembro. Não me recordo. "Seu" Zezinho, o chefe da carceragem, pediu-me para passar lá, pois tinha uma encomenda para me entregar. Fora, disse-me ele, um Senhor da Embaixada de Portugal (Jacinto Rego de Almeida) que ma deixara.
Voltei para a minha cela e lá abri o pacote. Continha jornais portugueses, entre eles o Expresso e uma cassete com músicas de um cantor, que eu desconhecia, chamado José Afonso. Coloquei a cassete num gravador e fui ouvindo, não sem estranhar os temas e, sobretudo o seu engajamento político. Aquilo era diferente de tudo o que até então tinha ouvido. Só encontrava paralelo na música latino-americana de intervenção.
Quando o gravador começou a debitar a última música, achei que não estava a ouvir bem. Rebobinei a fita , acomodei-me na cadeira onde estava sentado, carreguei no botão e comecei a ouvir de novo:
"Baía de Guanabara
Santa Cruz na Fortaleza
Está preso Alípio de Freitas..."
Com o coração apertado, a emoção a subir-me pela garganta, as lágrimas a quererem saltar-me  dos olhos, cobri o rosto com as mãos e quando o gravador se calou, encostei a cabeça na mesa de cimento à minha frente e chorei, chorei, até as lágrimas secarem. Afinal nunca estivéramos sós na dura e aparentemente interminável guerra que travávamos contra a ditadura militar. Muitos, muitos e em muitos lugares do mundo estavam a lutar connosco.
À noite, depois de jantar, na sala de convívio, todos os que ali, na Frei Caneca(Rio de Janeiro), estávamos presos, escutámos o Zeca. Quando, porém, a "minha cantiga"começou, todos os que estivemos na "batalha" da Fortaleza de Santa Cruz, fomos possuídos pela inabalável certeza de que foi ali que a ditadura militar começou a ser derrotada.
O Zeca foi a Voz que denunciou a opressão e o arauto que anunciou ao mundo o triunfo de uma liberdade até então oprimida.
Quando em Fevereiro de 1979 saí da prisão, depois de 10 anos de uma  luta sem tréguas contra um sem número de sentenças iníquas e depois que todos os presos políticos foram libertados( muito a custo, diga-se), vim a Portugal para observar o que por cá se passava e, sobretudo, conhecer o Zeca. Encontrámo-nos no pavilhão Carlos Lopes, onde se realizaria um concerto de apoio às lutas revolucionárias da América Latina. A impressão que eu tive então, foi a de que o Zeca e eu sempre estivéramos juntos, que nos conhecíamos desde sempre e que , a partir daquele dia, não haveria mais ausências. E foi isso mesmo que aconteceu.  Regressei ainda ao Brasil, voltámos a estar juntos em Moçambique e depois de novo em Portugal. Nunca mais , até hoje, nos perdemos um do outro. Quantas estórias nós contámos, quantos propósitos formulámos juntos, sobre quantas coisas em que tínhamos dúvidas nos interrogámos.
Quando resolveu partir , o Zeca fê-lo como um rei. Passeou-se pelo meio do seu povo, que o chorou, que o aplaudiu e o cantou. Alguns, poucos, pensaram que não mais voltaria, mas o povo que o amava bem sabia que isso não aconteceria porque algum dia seria necessário "sair para rua gritar", porque os vampiros "bebem o vinho novo e dançam no pinhal do rei", querendo "comer tudo"e também porque os "meninos nazis" que se tinham fingido de mortos, logo que o tempo lhes fosse favorável reivindicariam os seus direitos de filhos da puta.
P.S.À atenção de todos os "cipaios" de todas as TROIKAS:"fascistas da mesma igualha/ao tempo Carlos Lacerda/sabei que o povo não falha/seja aqui ou noutra terra."Foi também o Zeca quem cantou um dia "o povo é quem mais ordena".Estas palavras tiveram eco e transformaram-se em Revolução.





quinta-feira, 1 de março de 2012

20º Aniversário da Casa do Brasil de Lisboa



Já, por mais de uma vez, o desejo de ter o dom da ubiquidade me assaltou. Hoje é apenas mais um desses dias. É que eu bem queria estar, aí, na Casa do Brasil, comemorando o seu vigésimo aniversário, e aqui, onde me encontro, na Sociedade Portuguesa de Autores, na homenagem que aqui se presta ao Duda Guennes, também ele sócio da primeira hora da CBL. Aliás, o Duda não foi um sócio qualquer. Como membro activo dessa Casa, o Duda embrenhava-se em todas as sua lutas e actividades, estava sempre na primeira linha de todas as suas iniciativas. Essa, era, verdadeiramente, a sua casa. Espero que hoje, lhe guardem  uma cadeira, na fila da frente, no centro, como se ele estivesse aí para assistir a uma Final da Copa do Mundo de futebol.
Também por mim, aqui e agora, quero reafirmar que a casa do Brasil de Lisboa é a minha casa. E esse sentido de pertença jamais alguém mo poderá tirar. Nem sequer, eu mesmo, a ele poderei renunciar porque ninguém pode negar ou apagar uma parte da sua vida.
Quero dizer-vos ainda, que apesar das minhas andanças por outras militâncias, em qualquer lugar do mundo onde eu me encontre, e eu continuo andarilho, a primeira coisa que se me oferece dizer, quando alguém me pergunta o que faço, é repetir que sou membro da casa do Brasil e, se necessário, membro fundador. Quero também comunicar-vos que já tomei a decisão de estar mais presente, a partir de agora, nas coisas que se passam nessa minha Casa.
Das razões que levaram à fundação da Casa do Brasil, da sua luta pela sobrevivência, do combate diário pelos direitos dos emigrantes brasileiros e lusófonos, direitos esses que nem os países de origem pareciam estar interessados em reconhecer e apoiar, da construção de pontes culturais permanentes entre as várias comunidades, do esforço para trazer não só lusófonos para apoiar as nossas causas, de tudo isso e do muito que aqui não se enumerou, alguém vos há-de falar.
Durante estes 20 anos, muitas pessoas , todas importantes, passaram pela CBL, deixaram a sua colaboração e marcaram a sua presença. Mas há uma que mais do que qualquer outra marcou a vida desta Casa porque a reconheceu como um pedaço do Brasil. Refiro-me ao embaixador José Aparecido de Oliveira que se abriu e abriu esta casa à diplomacia brasileira e sempre contou com ela em todas as ocasiões em que foi necessário travar combates pelo Brasil. Foi ele quem disse que a Casa do Brasil, nos momentos em que aqui foi preciso lutar, foi o "braço armado" da Embaixada e da causa dos emigrantes.
Finalmente, quero fazer um apelo a todos os que por aqui passaram, que com esta casa colaboraram, e  por variados motivos dela se foram afastando, que regressem porque a sua presença é tão necessária hoje como foi ontem. A CBL terá de continuar a ser o  lugar onde todos os brasileiros, que aqui residem ou por aqui passam, poderão encontrar acolhida. Mais ainda. Hoje , a necessidade da construção do mundo lusófono é um dado adquirido e aceite por todos. A Casa do Brasil de Lisboa tem de constituir-se  no verdadeiro centro da construção da lusofonia em Portugal
A todos aqueles que mantiveram e mantêm alta a bandeira da Casa do Brasil de Lisboa, sem nenhuma excepção, um grande e fraternal abraço e um até já.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O povo é quem mais ordena

Faz hoje 25 anos que José Afonso, o Zeca, nos disse adeus, até logo. Passeou-se pelo meio do seu povo, aclamado e chorado, como um rei. Mas todos sabíamos, todos tínhamos a certeza de que aquela ausência seria temporária, pois nós não poderíamos sobrevier sem ele, nem ele achava possível estar por muito tempo ausente do  convívio com o seu povo. É por isso que, no calendário do povo português, o início da Primavera se celebra no dia 23 de Fevereiro. De há uns anos a esta parte, esse início da primavera, o dia 23 de Fevereiro, tem demorado muito, muito a chegar porque os vampiros voltaram com patinhas de lã e foram-se assenhoreando das nossas vidas, comendo o nosso pão, bebendo o nosso  vinho, sugando a nossa alegria, perturbando o nosso sossego, condenando a nossa forma simples de encarar a vida. Estamos quase esquecidos de que "o povo é quem mais ordena" e de  que "a praça é do povo como o céu é do condor".
Para que a Primavera volte e fique, é necessário expulsar e destruir os vampiros, retomar as praças e o poder, afirmar e garantir a todos o seu direito ao trabalho, á saúde, à habitação, à escola, ao lazer, à cultura, à felicidade. Afirmar esses direitos e fazê-los cumprir de forma universal e sem favor. É urgente lutar por isso, antes que "o pão nos saiba a merda"É também absolutamente necessário banir do nosso seio e do nosso país a forma actual de fazer política e já agora a TROIKA que anda por aí, ou qualquer outra, antes que consume o estupro que têm no desejo, como já fizeram com todos os países que lhes abriram as portas.
Desculpa lá Zeca este desabafo, pois não era isto que eu queria dizer-te neste dia. O que eu queria mesmo era cantar contigo as cantigas que fizeste para nós.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Este conto que vos conto... "Crónica de um dia de Reis"

 Eu sou raiano, fronteiriço da zona de Trás-os-Montes que se confronta com Leão e Castela. Fronteiriço, pois. Quando no final do Sec.XV, Isabel de Castela e Fernando de Aragão se casaram e começaram a construir a moderna Espanha, precisaram não apenas de armas e dinheiro mas também de símbolos. É  assim que os Reis Magos que, segundo a lenda cristã, tinham ido ao presépio prestar homenagem ao Deus-Menino, passam então a estar ao serviço dos reis católicos para os ajudar a construir a nova Espanha. E no dia 6 de Janeiro de cada ano, dia de Reis, no calendário cristão-católico, aí estão eles de volta a percorrer toda a Espanha, deixando presentes. Como não podia deixar de acontecer o costume atravessou a fronteira e instalou-se nalgumas zonas de Trás-os-Montes. Eu sou desse tempo e enquanto recebi presentes foi dos Reis Magos que os recebi. Nunca mantive relações com o Pai Natal da Coca-Cola.
Pois bem, aí pelos meus nove anos, morando eu em Vinhais, fiz o meu pedido aos santos Reis Magos para que me dessem  de presente uns novelos de lã azul para que a minha mãe me fizesse uma camisola. O dia de Reis foi-se aproximando e a minha ansiedade crescia. E crescia de tal modo que, na noite de 5 para 6 de Janeiro, não consegui conciliar o sono. Foi assim que lá pelas tantas da noite vi entrar a minha mãe no quarto, onde dormia eu e o meu irmão, e colocar nos nossos sapatos novelos de lã. Quando, depois da minha mãe ter saído do quarto, tudo regressou ao silêncio da noite, levantei-me da cama e fui ver os meus sapatos. Olhei e não quis acreditar. A minha lã era vermelha. A do meu irmão é que era azul. Pensando tratar-se de um engano, troquei as lãs, ficando eu com a azul e o meu irmão com a vermelha. E dormi finalmente .
De manhã, corri para a minha mãe para mostrar-lhe o "presente " dos Reis. Ela olhou-me  e disse secamente: mas a tua lã era vermelha!
Ainda tentei salvar a situação, mas diante da sua intransigência coloquei a lã em cima da banca da cozinha e gritei-lhe desafiador: não quero essa lã, não quero a camisola e isso dos Reis Magos é tudo mentira, porque eu vi a senhora por a lã nos sapatos! Duas bofetadas e uma sentença condenatória final foram o resultado da minha audácia.
Nunca mais tive presentes dos Reis Magos. A minha mãe morreu com 94 anos mas a sentença foi inexoravelmente cumprida.
Logo a seguir saí de casa, desci as escadas do adro da Igreja Matriz, atravessei a rua e fui para casa da minha tia Ana de quem eu gostava imensamente e que tinha um batalhão de filhos. Quando lá cheguei e entrei, os meus primos todos de uma só vez quiseram saber o que os Reis Magos me tinham deixado de presente. No princípio fiquei calado, mas depois de muita insistência, disse-lhes:
-Nada!
Ficaram atónitos. Foi a minha tia Ana que desfez o embaraçor:
- Tinha sim, os Reis Magos deixaram-te lã para uma camisola nova.
-Não tia, quem pôs a lã no meu sapato foi a minha mãe, eu vi.
-Não viste nada!
E aí vão mais duas bofetadas, que ainda me doeram mais do que as da minha mãe, porque daquela tia eu podia esperar tudo menos desamor. E logo os meus primos em coro:
-Mentiroso, mentiroso! Sai daqui e vai apanhar ar fresco que te há-de fazer bem  à cabeça.
E foi assim que nesse dia de Reis me vi na rua como cão sem dono, batido e expulso por todo o mundo. Como não tinha para onde ir e também não me agradava nada ir para casa, fui sentar-me, apesar de fria, na escada da porta lateral da Igreja Matriz. Ali fiquei, até que chegou o Padre  Miguel, coadjutor da paróquia e cujo "único defeito" para os seus paroquianos era o de ser preto, e me perguntou:
- Então que fazes aqui?
- Nada !- respondo.
- Vai para casa que está frio.
- Não quero ir para casa. Estou zangado com a minha mãe.
-Está bem - disse ele - então vem comigo para a Sacristia e ajuda-me a organizar os presentes para os meninos da catequese.
Levantei-me e entrei com ele na Igreja e fomos para a Sacristia. Aí o padre Miguel insistiu:
-Então, conta-me lá, porque é que estás zangado com a tua mãe?
Entre lágrimas e soluços contei-lhe todas as desventuras que naquela manhã me aconteceram.
-Deixa lá. Vamos preparar a festa da catequese hoje à noite. Aí haverá presentes para todos.
Durante as arrumações e preparativos o Padre Miguel lá me foi dizendo que os Reis Magos, de facto, não vinham trazer presentes. Que tudo era apenas para lembrar o que aconteceu quando eles chegaram ao presépio para adorar o menino Jesus e fazer-lhe as suas oferendas de ouro, incenso e mirra. Em que o Natal não era mais do que a festa de aniversário de Jesus...Assim fui esquecendo as minhas mágoas enquanto organizava os presentes e as rifas. Lá pelas tantas o Padre Miguel perguntou-me:
-Que presente gostarias que te saísse na rifa?
-O João Teimoso (o sempre em pé), respondi sem hesitação.
Então o Padre Miguel escreveu no papelinho da rifa o número correspondente ao João Teimoso, deu-mo e disse-me:
-Guarda-o. Quando for a tua vez de tirar a sorte, leva-o, esconde-o na mão e quando abrires o João Teimoso será teu. Mas é segredo entre nós, percebes?
Assim se combinou  e assim se fez. Mas, mesmo assim, só quando me vi com o boneco na mão é que acreditei. Dei pulos de contente. Aquela, sim, foi a minha noite de Reis.
Depois de  Vinhais o Padre Miguel passou por outras paróquias até chegar à de Santa Maria, em Bragança. Construímos ao longo dos anos que ainda convivi com ele uma grande amizade e foi com imensa tristeza que, estando eu já no Brasil, soube da sua morte inesperada. Bragança parou para homenageá-lo. Da Igreja de S. Vicente até ao cemitério, toda a cidade saiu para a rua para prestar-lhe uma última homenagem. O seu caixão desfilou como se fosse um rei.
Passado algum tempo, quando se tratou de translada-lo para um mausoléu construído de propósito para recebê-lo, correu "à boca pequena", muito em segredo, que o seu corpo já não estaria no caixão, teria desaparecido. Para mim, isso não é novidade nem surpresa, pois estou certo de que como Rei Mago voltou à sua África, de onde tinha saído há quase dois mil anos, guiado por uma estrela, ao encontro  de um menino que nascera para construir a Paz.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Feliz Ano Novo!

Feliz Ano Novo! Não é assim que se diz? Que se fala ao telefone a até naqueles adeusinhos de circunstância? Pois então Feliz Ano Novo! E por que não há-de ser assim? Por que se todos, desde o presidente Silva, ao primeiro-ministro Coelho, ao ministro Gaspar e o da Polícia e até ao querido lider Alberto João o repetiram? Já nem quero falar em todos os áulicos do Poder, que esses, por obrigação e respeito sempre têm de repetir a voz de quem lhes enche a gamela. E o povo (e isto é mais importante) aceita o desejo e esforça-se por pô-lo em prática, atropelando-se em todos os lugares onde há qualquer coisa à venda.
A mim, que não consigo aceitar esse Feliz Ano Novo, mais do que como uma formalidade, o que me apetecia ou apetece, era poder dar um abanão ciclópico neste país de modo  a separar os que não se deixam governar daqueles que só sobrevivem, se tiverem amos e senhores.
O Feliz Ano Novo só será possível quando nesta terra ( ou em qualquer       outra) não puderem existir mais "Homens Providenciais", "Queridos Lideres", "Grandes Timoneiros", "Guias Geniais" ou Troikas.
E para amenizar este mal humorado texto, nada melhor do que uma pequena história que , dizem, ter-se passado com o Presidente Samora Machel, a quem conheci pessoalmente e considero um homem de espírito agudo e de firmes convicções pessoais e políticas. Pois bem, dizia-se que o presidente Samora Machel tinha, para as questões de natureza económica e de desenvolvimento, dois conselheiros, ambos economistas de formação, um optimista e outro pessimista.
Num tempo em que as coisas da economia corriam mal, sobretudo por causa da guerra da Rodésia contra Yan Smith e daquela que os Boers da África do Sul moviam a Moçambique, mandou chamar os seus dois conselheiros.
Chegou primeiro o optimista, que pintou um retrato catastrófico da situação, argumentando por a+b+c que a economia do país estava totalmente destruída. Resumindo e pedindo licença ao presidente sentenciou:
-Está tudo uma merda.
Quando o conselheiro pessimista se preparava para falar, Samora Machel disse-lhe entre zangado e aborrecido:
-Vais dizer o quê, se aquele já disse que está tudo uma merda?
-Desculpe, Presidente, é que eu tenho fundados receios de que a merda não chegue para todos.
Transpondo a história para cá, não foi isso mesmo o que o sr.Cavaco Silva, que está Presidente da República,  disse aos Portugueses?
-Cuidado, que a merda pode não chegar para todos!