Carta Vária, porquê?



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O povo é quem mais ordena

Faz hoje 25 anos que José Afonso, o Zeca, nos disse adeus, até logo. Passeou-se pelo meio do seu povo, aclamado e chorado, como um rei. Mas todos sabíamos, todos tínhamos a certeza de que aquela ausência seria temporária, pois nós não poderíamos sobrevier sem ele, nem ele achava possível estar por muito tempo ausente do  convívio com o seu povo. É por isso que, no calendário do povo português, o início da Primavera se celebra no dia 23 de Fevereiro. De há uns anos a esta parte, esse início da primavera, o dia 23 de Fevereiro, tem demorado muito, muito a chegar porque os vampiros voltaram com patinhas de lã e foram-se assenhoreando das nossas vidas, comendo o nosso pão, bebendo o nosso  vinho, sugando a nossa alegria, perturbando o nosso sossego, condenando a nossa forma simples de encarar a vida. Estamos quase esquecidos de que "o povo é quem mais ordena" e de  que "a praça é do povo como o céu é do condor".
Para que a Primavera volte e fique, é necessário expulsar e destruir os vampiros, retomar as praças e o poder, afirmar e garantir a todos o seu direito ao trabalho, á saúde, à habitação, à escola, ao lazer, à cultura, à felicidade. Afirmar esses direitos e fazê-los cumprir de forma universal e sem favor. É urgente lutar por isso, antes que "o pão nos saiba a merda"É também absolutamente necessário banir do nosso seio e do nosso país a forma actual de fazer política e já agora a TROIKA que anda por aí, ou qualquer outra, antes que consume o estupro que têm no desejo, como já fizeram com todos os países que lhes abriram as portas.
Desculpa lá Zeca este desabafo, pois não era isto que eu queria dizer-te neste dia. O que eu queria mesmo era cantar contigo as cantigas que fizeste para nós.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Este conto que vos conto... "Crónica de um dia de Reis"

 Eu sou raiano, fronteiriço da zona de Trás-os-Montes que se confronta com Leão e Castela. Fronteiriço, pois. Quando no final do Sec.XV, Isabel de Castela e Fernando de Aragão se casaram e começaram a construir a moderna Espanha, precisaram não apenas de armas e dinheiro mas também de símbolos. É  assim que os Reis Magos que, segundo a lenda cristã, tinham ido ao presépio prestar homenagem ao Deus-Menino, passam então a estar ao serviço dos reis católicos para os ajudar a construir a nova Espanha. E no dia 6 de Janeiro de cada ano, dia de Reis, no calendário cristão-católico, aí estão eles de volta a percorrer toda a Espanha, deixando presentes. Como não podia deixar de acontecer o costume atravessou a fronteira e instalou-se nalgumas zonas de Trás-os-Montes. Eu sou desse tempo e enquanto recebi presentes foi dos Reis Magos que os recebi. Nunca mantive relações com o Pai Natal da Coca-Cola.
Pois bem, aí pelos meus nove anos, morando eu em Vinhais, fiz o meu pedido aos santos Reis Magos para que me dessem  de presente uns novelos de lã azul para que a minha mãe me fizesse uma camisola. O dia de Reis foi-se aproximando e a minha ansiedade crescia. E crescia de tal modo que, na noite de 5 para 6 de Janeiro, não consegui conciliar o sono. Foi assim que lá pelas tantas da noite vi entrar a minha mãe no quarto, onde dormia eu e o meu irmão, e colocar nos nossos sapatos novelos de lã. Quando, depois da minha mãe ter saído do quarto, tudo regressou ao silêncio da noite, levantei-me da cama e fui ver os meus sapatos. Olhei e não quis acreditar. A minha lã era vermelha. A do meu irmão é que era azul. Pensando tratar-se de um engano, troquei as lãs, ficando eu com a azul e o meu irmão com a vermelha. E dormi finalmente .
De manhã, corri para a minha mãe para mostrar-lhe o "presente " dos Reis. Ela olhou-me  e disse secamente: mas a tua lã era vermelha!
Ainda tentei salvar a situação, mas diante da sua intransigência coloquei a lã em cima da banca da cozinha e gritei-lhe desafiador: não quero essa lã, não quero a camisola e isso dos Reis Magos é tudo mentira, porque eu vi a senhora por a lã nos sapatos! Duas bofetadas e uma sentença condenatória final foram o resultado da minha audácia.
Nunca mais tive presentes dos Reis Magos. A minha mãe morreu com 94 anos mas a sentença foi inexoravelmente cumprida.
Logo a seguir saí de casa, desci as escadas do adro da Igreja Matriz, atravessei a rua e fui para casa da minha tia Ana de quem eu gostava imensamente e que tinha um batalhão de filhos. Quando lá cheguei e entrei, os meus primos todos de uma só vez quiseram saber o que os Reis Magos me tinham deixado de presente. No princípio fiquei calado, mas depois de muita insistência, disse-lhes:
-Nada!
Ficaram atónitos. Foi a minha tia Ana que desfez o embaraçor:
- Tinha sim, os Reis Magos deixaram-te lã para uma camisola nova.
-Não tia, quem pôs a lã no meu sapato foi a minha mãe, eu vi.
-Não viste nada!
E aí vão mais duas bofetadas, que ainda me doeram mais do que as da minha mãe, porque daquela tia eu podia esperar tudo menos desamor. E logo os meus primos em coro:
-Mentiroso, mentiroso! Sai daqui e vai apanhar ar fresco que te há-de fazer bem  à cabeça.
E foi assim que nesse dia de Reis me vi na rua como cão sem dono, batido e expulso por todo o mundo. Como não tinha para onde ir e também não me agradava nada ir para casa, fui sentar-me, apesar de fria, na escada da porta lateral da Igreja Matriz. Ali fiquei, até que chegou o Padre  Miguel, coadjutor da paróquia e cujo "único defeito" para os seus paroquianos era o de ser preto, e me perguntou:
- Então que fazes aqui?
- Nada !- respondo.
- Vai para casa que está frio.
- Não quero ir para casa. Estou zangado com a minha mãe.
-Está bem - disse ele - então vem comigo para a Sacristia e ajuda-me a organizar os presentes para os meninos da catequese.
Levantei-me e entrei com ele na Igreja e fomos para a Sacristia. Aí o padre Miguel insistiu:
-Então, conta-me lá, porque é que estás zangado com a tua mãe?
Entre lágrimas e soluços contei-lhe todas as desventuras que naquela manhã me aconteceram.
-Deixa lá. Vamos preparar a festa da catequese hoje à noite. Aí haverá presentes para todos.
Durante as arrumações e preparativos o Padre Miguel lá me foi dizendo que os Reis Magos, de facto, não vinham trazer presentes. Que tudo era apenas para lembrar o que aconteceu quando eles chegaram ao presépio para adorar o menino Jesus e fazer-lhe as suas oferendas de ouro, incenso e mirra. Em que o Natal não era mais do que a festa de aniversário de Jesus...Assim fui esquecendo as minhas mágoas enquanto organizava os presentes e as rifas. Lá pelas tantas o Padre Miguel perguntou-me:
-Que presente gostarias que te saísse na rifa?
-O João Teimoso (o sempre em pé), respondi sem hesitação.
Então o Padre Miguel escreveu no papelinho da rifa o número correspondente ao João Teimoso, deu-mo e disse-me:
-Guarda-o. Quando for a tua vez de tirar a sorte, leva-o, esconde-o na mão e quando abrires o João Teimoso será teu. Mas é segredo entre nós, percebes?
Assim se combinou  e assim se fez. Mas, mesmo assim, só quando me vi com o boneco na mão é que acreditei. Dei pulos de contente. Aquela, sim, foi a minha noite de Reis.
Depois de  Vinhais o Padre Miguel passou por outras paróquias até chegar à de Santa Maria, em Bragança. Construímos ao longo dos anos que ainda convivi com ele uma grande amizade e foi com imensa tristeza que, estando eu já no Brasil, soube da sua morte inesperada. Bragança parou para homenageá-lo. Da Igreja de S. Vicente até ao cemitério, toda a cidade saiu para a rua para prestar-lhe uma última homenagem. O seu caixão desfilou como se fosse um rei.
Passado algum tempo, quando se tratou de translada-lo para um mausoléu construído de propósito para recebê-lo, correu "à boca pequena", muito em segredo, que o seu corpo já não estaria no caixão, teria desaparecido. Para mim, isso não é novidade nem surpresa, pois estou certo de que como Rei Mago voltou à sua África, de onde tinha saído há quase dois mil anos, guiado por uma estrela, ao encontro  de um menino que nascera para construir a Paz.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Feliz Ano Novo!

Feliz Ano Novo! Não é assim que se diz? Que se fala ao telefone a até naqueles adeusinhos de circunstância? Pois então Feliz Ano Novo! E por que não há-de ser assim? Por que se todos, desde o presidente Silva, ao primeiro-ministro Coelho, ao ministro Gaspar e o da Polícia e até ao querido lider Alberto João o repetiram? Já nem quero falar em todos os áulicos do Poder, que esses, por obrigação e respeito sempre têm de repetir a voz de quem lhes enche a gamela. E o povo (e isto é mais importante) aceita o desejo e esforça-se por pô-lo em prática, atropelando-se em todos os lugares onde há qualquer coisa à venda.
A mim, que não consigo aceitar esse Feliz Ano Novo, mais do que como uma formalidade, o que me apetecia ou apetece, era poder dar um abanão ciclópico neste país de modo  a separar os que não se deixam governar daqueles que só sobrevivem, se tiverem amos e senhores.
O Feliz Ano Novo só será possível quando nesta terra ( ou em qualquer       outra) não puderem existir mais "Homens Providenciais", "Queridos Lideres", "Grandes Timoneiros", "Guias Geniais" ou Troikas.
E para amenizar este mal humorado texto, nada melhor do que uma pequena história que , dizem, ter-se passado com o Presidente Samora Machel, a quem conheci pessoalmente e considero um homem de espírito agudo e de firmes convicções pessoais e políticas. Pois bem, dizia-se que o presidente Samora Machel tinha, para as questões de natureza económica e de desenvolvimento, dois conselheiros, ambos economistas de formação, um optimista e outro pessimista.
Num tempo em que as coisas da economia corriam mal, sobretudo por causa da guerra da Rodésia contra Yan Smith e daquela que os Boers da África do Sul moviam a Moçambique, mandou chamar os seus dois conselheiros.
Chegou primeiro o optimista, que pintou um retrato catastrófico da situação, argumentando por a+b+c que a economia do país estava totalmente destruída. Resumindo e pedindo licença ao presidente sentenciou:
-Está tudo uma merda.
Quando o conselheiro pessimista se preparava para falar, Samora Machel disse-lhe entre zangado e aborrecido:
-Vais dizer o quê, se aquele já disse que está tudo uma merda?
-Desculpe, Presidente, é que eu tenho fundados receios de que a merda não chegue para todos.
Transpondo a história para cá, não foi isso mesmo o que o sr.Cavaco Silva, que está Presidente da República,  disse aos Portugueses?
-Cuidado, que a merda pode não chegar para todos!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

"...e o menino era preto"



Em 1961 era eu vigário de uma paróquia do subúrbio de S.Luis de Maranhão. Era uma paróquia pobre, muito pobre, não fosse ela de subúrbio. Três pequenos bairros (o Matadouro, hoje Liberdade, o  Floresta e o Fé em Deus, metade de palafitas e a outra metade de casa de pau a pique, cobertas de palha de palmeira. Havia algumas, muito poucas de tijolo nú e telha vã. Nada de água ao domicilio ou de saneamento básico. A electricidade era roubada da rede pública. Cada qual, eu mesmo, fazia a sua baixada. Não havia escolas, nem postos de saúde. Na Floresta existia uma capela em honra de Santo Expedito, que teria uns 70, 80 metros quadrados de superfície. O único equipamento social(?) era o serviço de altifalante do Cerejo que transmitia música, mensagens e recados para as três comunidades(?).
Por muita insistência minha, o arcebispo de S.Luís criara ali uma paróquia -a Paróquia do Divino Espírito Santo - pensando talvez que aquela minha insistência era assim como "uma  vontade que dá e passa".Não foi assim. Aluguei uma casa de pau a pique ao lado da capela e mudei-me para lá " de mala e cuia". Como eu estava muito ligado às organizações populares de bairro, a mudança não foi difícil. Sabia o que me esperava. A minha opção de vida era ser pobre entre os pobres. Mas criar a partir daquelas três comunidades de excluídos, uma igreja viva, preocupada, sem preconceitos, uma igreja  ao modo das primitivas igrejas cristãs, onde o amor supera tudo foi uma saga difícil, muito difícil mesmo.
No mês de Dezembro de 1961, o Arcebispo pressionado por forças que de todos os lados se levantavam contra "o novo" que estava ali a nascer, disse-me que eu teria de sair da paróquia até ao final do ano. Não questionei a decisão, não disse uma única palavra, levantei-me e saí do palácio arquiepiscopal. Também não comuniquei nada aos meus companheiros de aventura.
O Natal estava a chegar e como todas as festas da paróquia se celebravam na rua, como se fossem festas populares, as tarefas eram muitas, pois havia gente de outras paróquias que quase "clandestinamente" se associavam à nossa. As cirandas, os Bumba-meu-boi, as danças, os tocadores de viola, os rabequistas, tudo leva o seu tempo a preparar com esmero. E também as compras para as comidas e guloseimas que durante toda a festa se serviam aos da casa e aos de fora. Tudo na rua em frente à igreja e ás casas dos moradores.
Preparou-se também um presépio, onde para curiosidade de muitos substitui a manjedoura por uma cadeira enfeitada como se fosse um trono. A curiosidade era muita, mas ninguém perguntou nada.
Lá pelas onze da noite, já o Largo da igreja e toda a Rua Mem de Sá fervilhavam de gente, falando, comendo e bebendo. Ouviam-se músicas  e cantadores ao desafio em honra do menino Deus. Os Bumba-meu-boi evoluiam ao som de matracas e cantares. Os aplausos  distinguiam este ou aquele. O grande momento seria a Missa do Galo mas não havia altar preparado e eu que a devia celebrar andava por ali, no meio da gente. Havia a suspeita de uma surpresa, mas ninguém se abalançava a um palpite.
À meia-noite em ponto, quando o Cerejo pôs no ar uma canção de Natal e estalejaram foguetes no céu, todo o mundo ( e digo todo o mundo em sentido real), todos os olhos se voltaram para o cimo da Rua Mem de Sá e aplaudiram freneticamente. O Zeca puxava um burro pela rédea  no qual vinha sentada a Dilma com o seu filho Dimas, um bebé de dias. Desfilaram em triunfo por entre aquela multidão de pessoas  que ajoelhadas ou em pé os aplaudiam.
Quando chegaram ao presépio a Dilma desceu do jumento e foi sentar-se na cadeira com o menino sobre os joelhos. Foi então que eu disse uma poucas palavras e, em seguida, ajoelhei e beijei os pés do menino, convidando todos a fazerem o mesmo.Ninguém hesitou. Ninguém pôs em dúvida de que aquele menino preto, o Dimas, era o verdadeiro Jesus.
Já aquela noite de Natal ia muito alta, quando as cirandas se calaram, os Bumba-meu-boi começaram a recolher-se, as rabecas e violas deixaram de se ouvir e o Menino se retirou para casa. O ar que se respirava era de silêncio e de paz.
Exausto e triste, mas mais triste do que cansado, entrei finalmente na minha tapera, sentei-me na rede e chorei longamente. Senti-me sem eira nem beira, como se atirassem para fora do mundo. Afinal estava a ser expulso do meio do meu povo. Peguei então num caderno e numa esferográfica e escrevi a minha mensagem de despedida que a minha comadre e vizinha D. Maria entregaria ao Cerejo para ele ler no altifalante:"Tenho de partir. Contra a minha vontade. Faço-o agora depois que Jesus nasceu entre nós. Quero que saibais que vos amei e amarei sempre. Adeus".
Juntei então as minhas coisas, uma muda de roupa, uns livros, meti tudo num saco de estopa e fui para casa do Augusto do Nascimento, meu mestre e companheiro no movimento camponês, no bairro do Cavaco, um outro bairro pobre de S.Luis.
Parecia que já me esperava pois, ao lado da sua, havia armado uma rede vazia. Falámos durante uns cinco minutos, depois descalcei as sandálias, afundei-me na rede e dormi até tarde. Fiquei com o Augusto vários dias e foi  de lá , da sua palafita que parti, de novo, à conquista do mundo e de uma noite de Natal sem fim.
Passados mais de vinte anos, muitos sóis já nascidos e postos, centenas e centenas de caminhos andados, muitos combates travados, uns vencidos outros perdidos, liberdades e prisões à mistura, regressei à paróquia do Divino Espírito Santo, para matar saudades do povo da Floresta, do Matadouro e do Fé em Deus. Algumas pessoas foram-me reconhecendo e a notícia da minha presença correu célere como fogo em mato seco. Todos queriam falar comigo, tocar-me, contar novidades, saber se viera para ficar. Foi então que um rapaz forte e alto, morenaço abriu caminho entre os presentes  e aproximou-se de mim, tirou o boné, apanhou a minha mão direita e antes de beijá-la disse: a sua bênção meu padrinho. Eu sou o Jesus.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A Falácia da Dívida



Há dias num almoço partidário, o deputado do PS, Pedro Santos, afirmou que se deveria usar a dívida como arma de arremesso contra os credores, especialmente alemães, como forma de fazê-los entender que empréstimo e usura não são a mesma coisa. O que o deputado Pedro disse nem sequer é novidade, mas expressa bem o sentimento dos portugueses em relação a tudo o que a TROIKA, através do governo, está impondo ao país real. Se fosse noutro tempo lá estaria o deputado Pedro Santos, mais a sua família, descalços e de corda ao pescoço, a caminho de Berlim, para humilhados, ouvirem da boca da chancelarina Merkel, a irrevogável sentença condenatória. Teve sorte o deputado, pois os mastins que zelam pela DIVIDA SOBERANA e pela TROIKA podem ladrar, não podem morder.
Renegociar dividas, dar-se como insolvente, ou declarar moratórias são atitudes correntes, normais no sistema capitalista, quer entre países, quer entre empresas, quer até entre cidadãos. Por que não haveria de sê-lo em Portugal ou de Portugal com os seus credores, especialmente quando as condições que se impõem ao devedor raiam os limites da extorsão, atentam directa e objectivamente contra a soberania ou a própria existência do PAÍS?
Certamente não serei eu a pessoa mais indicada  para dar conselhos, até porque os "bons conselhos" os advogados vendem-nos. Mas sempre direi que o ataque ao pagamento da dívida deveria ter sido precedido  de um projecto de lei exigindo uma AUDITORIA RADICAL E INDEPENDENTE às contas públicas, privadas e marginais do Estado, na sua totalidade, e dos agentes públicos e privados que operam essas contas. Tudo a começar em 1974, após a restauração da actual Democracia. A partir daí poder-se-ia então falar de dívida externa com propriedade. Antes disso, tudo que se diga ou escreva, não passa de "faits divers".
Repito "faits divers", porque, com a instauração do Tribunal do Santo Ofício, mais conhecido por Inquisição, há 500 anos, os portugueses começaram a omitir-se da sua cidadania. Preferem fazer de conta que não sabem, que não vêm, que não ouvem. Ou então vão-se embora, mesmo sem ser o primeiro-ministro a mandá-los.
É urgente desenterrar a caveira de burro que um qualquer inquisidor-mor enterrou em algum lugar deste país e que emite energia negativa sobre esta terra e o seu povo, transformando a terra numa praia de onde só se parte e o seu povo em ausência. Os portugueses querem ser felizes aqui, nesta terra que é a sua. Felizes e cidadãos, não importando o nome que se dê à sua forma de viver e estar no mundo. Felizes e Cidadãos.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Um insólito doutoramento



O hábito de andar por aí, assim a andarilhar fez com que sempre estivesse atento à história não me admirando portanto de nada. Aliás a Bíblia refere  há centenas e centenas de anos, que "não existe nada de novo debaixo do sol". É um aviso antigo e sábio, mas que a "nossa vã filosofia" nos faz esquecer. Por isso não me admirei que uns epígonos quaisquer fantasiados de responsáveis da Universidade do Mindelo atribuíssem ao Sr. Adriano Moreira o título académico  de "Doctor Honoris Causa", que ele o sr. Moreira aceitou.
Foi e é baseado em critérios semelhantes aos dos responsáveis da universidade do Mindelo que os neo-nazis alemães criaram a "verdade histórica" de que depois de Lutero, Hitler foi a mais amada personalidade da história da Alemanha; que os franquistas mais próximos de Franco, ainda ele insepulto, já tinham preparado um processo pronto para dar entrada na Cúria Vaticana para que fosse declarado "Beato", como convinha a um "Caudillo de España por la gracia de Dios"; foi assim que Estaline, apesar dos crimes da colectivização, dos julgamentos de Moscovo, das diversas limpezas étnicas e de todos os Gulags, era apelidado de "Paizinho" e de "Guia" universal da Humanidade.
Os exemplos de amnésia política e cultural que conduzem ou pretendem conduzir, e nalguns casos com sucesso, ao esquecimento dos crimes cometidos contra a humanidade são muitos, multiplicam-se. Por isso é necessário estar atento, vigilante. A mim tanto importa que o autor do crime se chame Adriano Moreira ou Videla, Ulstra Brilhante, Pinochet ou Suharto, ou outro(infelizmente há muitos!)e menos ainda que tenham morrido ou se escondam sob qualquer disfarce. Tais crimes são imprescritíveis e o seu julgamento é da alçada dos tribunais. E que não haja amnistias que descriminalizem os autores dos crimes e condenem as vítimas. Não é vingança o que se pretende. Apenas justiça.
Aqui, em Portugal, as amnistias e as revoluções democráticas entenderam mal a fábula do cordeiro e do lobo. Aparentemente abriram um espaço sem fim aos cordeiros e circunscreveram o dos lobos. Mas as vigilâncias foram-se relaxando e hoje a fábula volta repetir-se - a culpa é e sempre foi dos cordeiros.
Voltando ainda ao caso do doutoramento Honoris Causa do sr. Adriano Moreira há algumas perguntas que têm de ser feitas e conviria que fossem respondidas:
  1. 1.     a escolha do dia 10 de Dezembro, dia que foi escolhido pela ONU para relembrar os Direitos Humanos, foi propositada ou casual?
  1. 2.     conhece-se algum texto ou discurso ou simples comunicação do sr. Adriano Moreira reconhecendo como um erro político a atitude do Salazarismo contra o direito dos povos das colónias à independência?
  1. 3.     reconheceu  alguma vez o sr. Adriano Moreira que no "Campo de Trabalho" de Chão Bom(Tarrafal) se praticava a tortura e os prisioneiros eram submetidos a um regime carcerário indigno?
  1. 4.     os promotores da atribuição da referida distinção académica levaram em conta a opinião dos seus concidadãos, antigos prisioneiros e sobreviventes do Tarrafal?
  1. 5.     os mesmos promotores alguma vez se questionaram sobre o papel que o Tarrafal representou na história política e na luta anti-fascista?
  1. 6.     os promotores da citada homenagem ao sr. Adriano Moreira sabiam e sabem que os actos praticados no Tarrafal contra os prisioneiros políticos que por lá passaram ou lá faleceram são crimes contra a humanidade, inafiançaveis e imprescritiveis?
  1. 7.     sabem também os promotores que quem encobre tais crimes e obstaculiza o trabalho da justiça, ou protege os seus autores incorre em penas semelhantes às aplicáveis aos crimes?
Consumada que está esta afronta pública aos Direitos Humanos, só resta à Universidade do Mindelo anular a concedida distinção ao sr. Adriano Moreira e pedir desculpas, mesmo que formais, a todos aqueles a quem ofendeu com a leviandade deste acto.

domingo, 4 de dezembro de 2011

P´ró lixo os contos de fadas



Há uns dias, no aniversário de uma pessoa muito querida, meninos e adultos fartaram-se de falar das personagens desses contos de fadas, que os nórdicos nos vêm impingindo há uma série de anos. Falou-se do lobo mau, do capuchinho vermelho, da avozinha não sei quantos, e até da bruxa feia , má e nariguda.
Confesso que senti saudades dos meus tempos de criança, quando na quinta do meu avô paterno, à noite, na lareira, o tio Cinzento, o tio Baptista, o tio Sernande e o meu avô contavam histórias fantásticas do Mau Soldado, do Judeu Errante, do Frade Peregrino, da Sopa de Pedra, da Raposa e do Grou, das batidas aos lobos, e até dos "milagres" da Bruxa de Quiraz. Aquilo é que eram histórias e todas verdadeiras, pois tanto o tio Baptista, como o meu avô e os outros tinham tomado parte nelas, ou como testemunhas ou como actores.
Agora não. As histórias que se contam aos meninos são todas de faz de conta. Tal qual o palavreado dos políticos. E é assim que eles nos enganam ou tentam enganar. Sempre sem credibilidade, pois a história é interpretada de acordo com as personagens. Interesses e humores, o que é muito, muito grave, pois os interesses são conhecidos, mas os humores, esses nem Freud nos pode ajudar a defini-los.
Há muitos políticos, jornalistas, professores, comunicólogos e outros que se sentem bem assim, assimilados por uma cultura estranha e estúpida. Muitos mais do que seria legitimo pensar. Pois que se fiquem com ela, com essa cultura bárbara e rendam embevecidos todas as homenagens à sra. chancelarina Merkel e ao seu escudeiro de serviço, sr.Sarkozy. Eu aqui só posso falar por mim, continuarei fiel à cultura mediterrânica, a única que vingou e floresceu na Europa. Daquele mundo que os romanos e gregos denominaram de barbárie só quero distância. Muita distância.
Amo as histórias do Mau Soldado, da Bruxa de Quiraz, encantam-me as proezas dos contrabandistas, das batidas aos lobos, das raposas matreiras, das caçadas aos javalis. Ponho o pecado e a virtude em pé de igualdade, porque ambos são humanos. Gosto de navegar para o Sul, porque é abaixo do Equador que reside a alegria. Gosto deste mundo mediterrânico. Foi aqui, que um deus desconhecido acasalou o sol, o vinho e o amor para que se pudesse ser feliz. Um deus desconhecido que nada tem a ver com o deus desses luteranos e calvinistas que queimam com fogo e fósforo Sodoma e Gomorra e Faluja , no Iraque. Teremos de  já hoje, agora, se quisermos sobreviver como civilização, de dizer a eles e aos seus bajuladores que nos esqueçam, que não insistam em domesticar-nos. Os WASP (brancos, anglo-saxões de protestantes) já causaram tantos danos à humanidade e ao Universo que já é tempo de saírem de cena no Grande Teatro do Mundo.