Carta Vária, porquê?



domingo, 8 de fevereiro de 2015

Rilhafoles à vista!


Como era de esperar, o 1º Ministro grego, Alexis Tsipras foi ao Parlamento para definir o que será o seu Governo. Primeiro, reclamar da Alemanha as indemnizações devidas à Grécia por causa dos estragos aí perpetrados durante a ocupação alemã na II guerra mundial. A Alemanha que se arroga de cobrar juros do capital emprestado aos países que durante a guerra ocupou, tem agora, pela primeira vez, um país que lhe demonstra que o devedor é ela. A Grécia exige o pagamento da dívida. Disse ainda o 1º Ministro grego que a eletricidade voltaria a ser fornecida gratuitamente a todos aqueles que não a podiam pagar. Subiu o salário mínimo para 750,00 euros. Vai distribuir senhas da alimentação aos necessitados. Inviabilizou todas as vendas e privatizações do património e dos recursos naturais da Grécia. Reduziu substancialmente o salário dos políticos. E agora, Sr. Passos Coelho, ainda 1º Ministro? O que diz a tudo isto? Será que estas medidas continuam a ser histórias para crianças? Ou será que no PSD e no CDS não há ninguém que o avise do ridículo em que está a envolver o país?Diz um ditado grego que os deuses quando querem perder os homens, ensandecem-nos. Será que os deuses do Olimpo resolveram divertir-se consigo e com os partidos que o apoiam? Tome cuidado porque em Rilhafoles há sempre vagas disponíveis!

Falando de música


Na sexta-feira p.p. resolvemos ir até ao Alentejo, mais propriamente até a Alvito, vilazinha do distrito de Beja, cujo interesse principal para nós, é o de termos lá alguns amigos e conhecidos e uma casinha, que não sendo um palácio é boa de disfrutar.
Chegámos e estava um frio de rachar daqueles que por esta altura assolam o Alentejo e que só uma boa lareira consegue espantar. O problema é que não havia lenha em casa, os aquecedores a gás estavam sem gás, pelo que resolvemos regressar pela manhã do dia seguinte. Se há uma coisa que não consigo entender é que na cultura cristã o inferno é extremamente quente, enquanto que na cultura grega é extremamente frio. Esta é uma das coisas em que as culturas grega e cristã não se entenderam. Quem sabe se o que está a acontecer entre o Syriza e a Europa não advém daí…

Mas falando a sério. No regresso para Lisboa, ao ligar o rádio do carro estava a ser transmitido na Ant2 um programa de música do professor João de Freitas Branco. Nem pensei em sair dali. E entre música clássica e informações históricas e culturais sobre as músicas, chegámos a Lisboa. Confesso que não me recordo do nome do Programa mas que fiquei seu fã, fiquei. Além do mais, o programa fez-me regressar a um passado já longínquo em que eu mal saído do Seminário, fui trabalhar para uma escola de artes e ofícios que acolhia meninos pobres, de idades entre os sete e os 18 ou 19 anos, quando iam cumprir o serviço militar.
Nessa escola aprendia-se artes tipográficas, mecânica de automóvel e artes afins, como pintura, e carpintaria. A escola primária era feita na escola oficial e alguns alunos estudavam na escola industrial da cidade.

Como em muitas outras escolas semelhantes, o aprendizado da música era oficial e obrigatório, pois em quase todas existia uma banda de música ou orquestra. O Patronato não era exceção. Assim, quando qualquer internando chegava punha-se-lhe nas mãos o solfejo de Tomás Borba, encarregando-se um dos alunos mais velhos do lho ensinar. Em poucos dias aprendiam a solfejar e iam experimentando, conforme as idades e os tamanhos, os instrumentos musicais que tinham à sua disposição. Desta forma, a escola dispunha sempre de uma orquestra e de uma banda de música para atuar em concertos e festas. Muitos dos alunos tornaram-se músicos profissionais em orquestras e bandas de música militares. Digo isto porque não consigo entender que sendo o estudo da música obrigatório em determinados níveis de ensino, a prática da música seja tão escassa e a falta de gosto tão generalizada em Portugal. E não se diga que o povo português não gosta de música, porque em todas as aldeias por onde passei, as pessoas não só cantavam música religiosa como mantinham a prática da música popular, sobretudo a que se referia ao trabalho.

Toda a música tem a sua origem no povo e quando ela se torna mais elaborada é fruto das muitas contribuições que esse mesmo povo lhe dá. Não existiriam nem Bach, nem Sibelius, nem Beethoven e tantos outros se não houvesse a música popular, aquela que tem raízes na cultura do povo.
Quanto ao professor João de Freitas Branco, quero apenas dizer-lhe que me tornei desde já assíduo ouvinte do seu programa e que todos os sábados estarei atento a ouvi-lo na Ant 2. Obrigado, professor.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Falando da Grécia



Conheci um padre, numa paróquia de Trás-os Montes que foi professor no Seminário menor de Vinhais que, em tempo de eleições, mandava os seus paroquianos votar no Partido para Deus, ou seja no PPD.Com a mudança de PPD para PSD, uma vez que Deus ficou a cargo do CDS que, segundo os seus líderes é democrata-cristão, não sei como é que o padre Valdomiro poderia “descalçar esta bota”. Mas o que eu não entendo, quer tratando-se do PPD ou PSD como é que eles elegem para seu secretário-geral, um “tipo” como o Sr. Passos Coelho. Será que o padre Valdomiro já morreu? Creio que ele serviria melhor aos interesses do PPD e CDS do que qualquer um dos seus militantes mais “combativos”. Em todo o caso, e para que não restem dúvidas, perguntem à Sra. Merkel. Vem isto a propósito das declarações do Sr. Passos Coelho sobre as eleições gregas que levaram ao poder o Syrisa e também da sua política patriótica em não se rebaixar diante da Europa. O Syrisa colocou desassombradamente os interesses da Grécia e do seu povo acima dos interesses de dominação, sobretudo da Alemanha, lembrando a todos os alemães que os únicos beneficiários da atual política europeia são eles mesmos. Mais ainda, que a Alemanha que já lançou o mundo em duas guerras sempre saiu beneficiada com elas, pois os seus credores, por este ou aquele motivo, sempre acabaram por perdoar-lhe as dívidas de guerra ou minorar o seu impacto. Mais ainda, o Syrisa lembrou à Europa que a Grécia existe como entidade política antes da própria Europa existir, resistindo como entidade cultural a todo o tipo de dominações, desde a romana à nazista, passando pela turca e russa czarista. Fala-se muito da dívida grega, que beneficiou apenas os ladrões e políticos do costume, mas nunca ninguém falou da dívida permanente que a Alemanha, a França e a Inglaterra têm com a Grécia pelo esbulho constante do seu património cultural. Basta visitar os museus de Paris, Berlim ou Londres…!

 

 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Onde está o poder?



O País vai mal. Todo o mundo o reconhece. De alguns sectores da direita à esquerda. A cada dia se apresentam novas soluções para a crise, mas ela cada vez se aprofunda mais como uma febre maligna que vai destruindo o corpo da república. Isto, porquê? Porque o país é pasto do capitalismo monopolista, é governado por uma troika estrangeira que o empurra para crises insolúveis e dirigido por políticos incompetentes e corruptos, que não têm nada a ver com os interesses daqueles que os elegeram. As pessoas deixaram de acreditar nos que se dizem seus representantes e, por isso, nos remédios que eles recomendam e ministram para debelar essa febre. A democracia em Portugal, e não só, está em crise, mergulhada numa agonia sem  fim, e sem democracia real, verdadeira, nenhum dos problemas que afligem os povos, principalmente os da União Europeia terá solução. Evidentemente que isto todos sabem, mas recusam-se a trilhar o caminho correto, preocupando-se não em encontrar soluções mas em bisbilhotar, divulgar e opinar, tal casa dos segredos, sobre determinados fait-divers ligados a casos que põem em causa os fundamentos da democracia, como o BES, Sócrates, Vistos Dourados, Apito Dourado, as compras milionárias dos chineses, vendas apressadas do património nacional, etc, etc. Enquanto isso, continua o ataque ao SNS, à Escola Pública, com milhares de funcionários e professores sem colocação ou à beira do desemprego, com estatísticas mentirosas e promessas que nunca serão cumpridas. Creio, porém que ainda há uma réstea de esperança, uma vez que a há pessoas, em todos os sectores de atividade, que se organizam para discutir a atual situação do país e da Europa, mas a quem, a meu ver, falta a decisão de agir. É necessário voltar ao povo e organizá-lo, pois é nele, no povo, que reside o poder.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A praça é do povo.


 
 
 
Estou feliz. A Dilma venceu, mais ou menos à rasquinha, mas venceu. Era mais do que evidente que os cachorros que sempre nos andaram a morder os pés reagissem.Ainda a presidente Dilma não tomou posse e já eles estão inventando a possibilidade do impeachment, acusando-a de graves delitos tais como o chamado Petrolão. Não era de esperar outra coisa, até porque agora não têm mais militares para levá-los pela trela ao poder. Mas o que se faz com cães raivosos? Partem-se-lhes os dentes de modo a que não possam morder. E nisto temos que estar todos juntos, bem unidos, com os olhos fincados e bem fincados naquilo que são os objetivos finais da nossa luta, afinal na luta do povo brasileiro. Não podemos, de forma alguma, deixar que eles voltem a se assenhorear do poder. Por isso, todas aquelas reformas que nos trouxeram até aqui têm de ser feitas doa a quem doer, rapidamente, com determinação. Agora não há mais lugar para "disse-me disse" ou "ainda não é possível" ou então que "o povo não está preparado" para enfrentar connosco os seus opressores de sempre. Agora, mais do que nunca, é necessário unirmo-nos com determinação, sem vacilações. Quero também deixar uma palavra ao nosso povo para que ele não se iluda mais uma vez com aqueles que se diziam seus amigos e protetores mas nada mais fizeram do que oprimi-lo e explorá-lo. Afinal, quem é e o que é esse Aécio Neves? Quem era o seu avô? É difícil defini-los porque em todas as circunstâncias estiveram ao lado da repressão deixando o povo à sua mercê, até mesmo os seus companheiros. O senador Tancredo Neves formou um partido de oposição a pedido do ditador de plantão Castelo Branco. Nunca defendeu esse partido nem os poucos membros que ousaram discordar da ditadura. Assistiu, assobiando para o lado, a toda a repressão que a ditadura impôs ao povo brasileiro. Parecia que tudo o que estava a acontecer no Brasil não era com ele. Por casualidade e com a ajuda de alguns membros do partido governamental-Arena-foi eleito no Congresso presidente da República. Aécio foi eleito governador de Minas no falso prestígio do seu avô, prestigio esse que não chegou agora para elegê-lo presidente da República. Ainda bem. O povo brasileiro tem memória. Estou feliz.

Carta aberta a uma candidata vencida à presidência do Brasil



 
Marina:

Ao ter conhecimento da tua existência e da tua militância senti que alguma coisa estava a mudar no Brasil. Pela 1ª vez na História do Brasil uma mulher, que não pertencia à burguesia dominante saía da obscuridade da sua terra de nascimento, no Norte do Brasil e, através do seu esforço, ia escalonando os degraus do poder até chegar à mais alta corte do Brasil -o Senado. O mesmo deslumbramento devem  ter tido outros brasileiros e nem sequer temi que as forças reacionárias que sempre dominaram e exploraram esse país te pudessem abocanhar. Afinal, tu fazias o teu caminho com o Partido dos Trabalhadores que, mesmo não sendo um Partido perfeito, se assumia como uma força transformadora do Brasil. Foi assim durante anos até que começaram a surgir notícias preocupantes. A aliança com os movimentos evangélicos mais conservadores não augurava nada de bom. Não é que eu tenha alguma coisa contra os evangélicos, qualquer que seja a sua denominação. Tive grandes amigos, até norte-americanos, crentes presbiterianos praticantes. Jamais poderei esquecer o Paulo Wright que foi militante de A.P. e da A.P.M.L. e foi vilmente assassinado em S. Paulo pela polícia de Fleury. Para mim e para muitos outros que participaram na luta pela democratização do Brasil ele sempre será herói. Depois chegou-me a notícia de que irias abandonar o PT e filiar-te no partido dos Verdes. Quero dizer-te que tenho um imenso respeito e admiração pelo trabalho dos partidos ecologistas, pois defendem como ninguém, o meio ambiente, a casa comum de todos nós. Defender o meio ambiente não é tarefa fácil, rodeados que estamos de predadores, os mais poderosos e contumazes. Eles são contra a vida. Todavia, no Brasil eles , os Verdes, têm sido ineficazes. Então perguntei-me o que irias fazer nesse partido, abandonando um outro que não sendo perfeito, pela sua estrutura e penetração tem condições objetivas de encaminhar soluções que ajudarão a transformar o Brasil positivamente. Mais, soube-se também que a tua discordância com o PT era mais um caso pessoal do que político. Pelo menos, foi isso o que chegou ao meu conhecimento. Disso não me admirei, até porque os partidos, principalmente nos partidos revolucionários a luta interna é o seu dia-a-dia. De outro modo, mergulham numa paz podre. O que não cabe num partido revolucionário é a luta pessoal sem princípios. Assim, soube, à partida, que ias perder esse confronto com a presidente Dilma, então apenas Chefe da Casa Civil. Conheci-a na prisão. Ela é uma mulher de armas. Determinada nos seus propósitos, firme nas suas convicções. Não é uma mulher qualquer. Ela dominava aquele coletivo de mulheres do presídio Tiradentes com um à-vontade incrível. Depois as nossas vidas separaram-se, ela foi para o Rio Grande do Sul onde estava preso o seu ex-marido e eu transferido para outros e outros presídios. Ela merece hoje, como antes, a minha confiança e irrestrita solidariedade.
 

Tenho-te ainda como minha companheira de caminhada revolucionária, como combatente do mesmo exército libertador. Se quiseres aceitar um conselho meu, e eu já sou velho suficiente para poder dar conselhos, (tenho talvez tantos anos de militância política como tu de vida), inicia, já, hoje, o caminho do regresso, voltando ao seio de onde saíste para que todos te possam de novo receber e abraçar como companheira do mesmo combate.

domingo, 31 de agosto de 2014


 Finalmente chegaste, amigo, velho guerreiro!

Há um direito civilizacional que está acima de qualquer constituição ou poder  e que nos vem do princípio dos tempos, quando os homens começaram a viver em comunidade. É o direito inalienável de todos os seres humanos velarem e chorarem os seus mortos e enterra-los conforme o ritual estabelecido.

Apesar disso, ao longo dos tempos, muitos falsos poderes e muitas instituições abusivas se levantaram contra esse direito e tentaram retirar aos povos aquilo que nunca lhe poderá ser retirado: o direito aos seus mortos. Foi o que aconteceu no Brasil a partir de 1964 quando uma ditadura militar fascista se apoderou do poder e durante 20 anos atropelou  os direitos humanos.

Epaminondas de Oliveira foi um daqueles, entre muitos outros, a quem essa Ditadura negou os “sete palmos” a que todos temos direito na terra e a ser venerado e chorado pela sua família e   amigos diante do seu corpo de lutador e homem íntegro. Felizmente Epaminondas de Oliveira voltou à sua cidade, à sua família, aos seus  amigos que no Brasil e fora dele o admiram e respeitam  para  receber as homenagens que lhe são devidas e ser conduzido, em triunfo, ao Campo Santo que o espera há 40 anos. Tudo isto, este regresso e o reconhecimento da sua luta é fruto da persistência,do sentido de justiça e do amor,  mais do que ninguém, da sua família  e, sobretudo, do seu neto Epaminondas. Sem essa dedicação  jamais teríamos Epaminondas de Oliveira connosco e  ele continuaria esquecido,  enterrado que foi como indigente  num cemitério de Brasília. Obrigado, Epaminondas Neto!

Pessoalmente tenho muitas e boas lembranças e grande saudade do velho Epa e só não estou hoje aí para  participar da sua glória porque a minha saúde o não permite. Epaminondas foi para mim um mestre, um companheiro que me abriu caminhos que eu jamais descobriria e me enriqueceu com companheiros que a morte  também já roubou. Epaminondas foi um lutador desde o primeiro dia em  que tomou consciência que era necessário mudar o mundo, foi um combatente revolucionário que fez da sua vida a sua luta, um daqueles que por ter lutado todos os dias da sua vida se tornou imprescindível.



Eu  hei-de voltar aí um dia, não sei quando, porque a minha relação com EPA não terminou ainda e eu como caminhante do mesmo caminho quero prestar-lhe contas dos caminhos que trilhei sem ele. Até  de repente, querido amigo!