Carta Vária, porquê?



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014


Do meu amigo Paulo Esperança, que me mandou este presente de aniversário

CARTA a um

HOMEM de "ANTES QUEBRAR QUE TORCER"

… (que completa 85 anos em 17 de Fevereiro de 2014)

Tenho quase 59 anos, chamo-mo PE, sou do Porto, faltam-me muitos dentes e não sou filho de professores primários.  

Não sou "velho" amigo do Alípio de Freitas apesar de ter a sensação que já percorremos o universo em "guerras" comuns.

Mas isto, já sei o que estão a pensar… é "conversa fiada" ou paleio de "cristão-novo".

 Talvez tenham razão!

Aliás, devo dizer que cheguei ao Alípio por intermédio de uma mulher que muito admiro: a Guadalupe.

Que, aqui afirmo de forma clara…não entendo como continua a ter pachorra para o aturar. Mas isso é problema dela!

Passemos à frente: há mais de 10 anos, Aznar, Bush, Blair eram recebidos na Base das Lajes pelo estalajadeiro Durão Barroso.

Em poucos minutos, depois de uma caldeirada de peixe, e provavelmente, de "tintol" a mais, a decisão foi tomada: o Iraque iria ser invadido.

Um grupo de homens e mulheres decide então lançar, em Portugal, o Tribunal Mundial sobre o Iraque na sequência do Tribunal Russel e de outras iniciativas internacionais.

Fui a Lisboa… inseri – me, com muito orgulho, nesse projecto e conheci a Guadalupe na Associação 25 de Abril, na montagem de uma exposição.

Apareceu o Alípio…que não ajudou a fazer nada…diga-se de passagem.

Portanto, podemos dizer que, para mim, a Guadalupe é que conta: sem ela não teria conhecido o Alípio.

Claro que isto não pode ser lido à letra:

-tinha visto na RTP uma série de trabalhos feitos por ele,

-conhecia sua história política no Brasil porque, confesso, a epopeia da luta armada na América Latina sempre me seduziu intelectualmente,

-e, finalmente, tinha ouvido vezes sem fim a faixa 10 do disco "COM AS MINHAS TAMANQUINHAS" onde o Zeca celebra a capacidade de luta e resistência de um homem de grande firmeza.

Os nossos caminhos, por generosidade do Alípio e da Guadalupe, passaram a estar próximos.

Confesso, nem ele se lembrará seguramente, que quase durante um ano o tratei por você.

Depois, enchi-me de coragem e passei a trata-lo por tu.

E depois…com mais coragem ainda… passei a chatear-lhe a cabeça com "provocatórias" divergências políticas.

Uma vez, em minha casa…ousei dizer-lhe que estava a ficar "social-democrata ".

Lembro-me perfeitamente: estávamos à mesa, olhou para mim e disse olimpicamente: "ganha juízo e deita-me mais vinho no copo".

Mas, como o respeitinho é muito lindo…eu "dourava a pílula" chamando-lhe "mestre" e depois "comandante".

Há mais de meia dúzia de anos a Natércia Campos, então Presidente da Direcção da Associação José Afonso morria ao serviço de "O Bando", onde trabalhava.

A AJA…. não vivia os seus melhores dias.

Em Azeitão… no meio de umas sardinhas assadas… o Alípio foi proposto para Presidente da Direcção. O Francisco Fanhais foi proposto para Presidente da mesa da AG.

Um companheiro nosso ficou encarregado de fazer os contactos e o Alípio respondeu que sim…mas que julgava que a AJA tinha acabado. Ele que tinha sido fundador!

Fiz com ele alguma estrada que, julgo, ajudou a implantar, um bocadinho mais, a AJA.

Hoje, aqui chegados, continuadamente "à procura do socialismo" nada tenho para dizer a um homem que escreveu um livro, "RESISTIR É PRECISO", no qual ressalta uma ideia base: "quando percebi que não ia morrer decidi resistir e lutar … sempre"!

 E nada mais há a dizer porque o Zeca já disse tudo: na prisão de Tiradentes…homem de grande firmeza.

Bem hajas COMANDANTE pelo teu exemplo de coragem, firmeza e coerência! Estaremos contigo para o que der e vier!

PE

PS: sinceramente, por ti, APENAS por ti, lamento a maré "cinzenta" em que o teu Futebol Clube do Porto navega! Mas ninguém é perfeito…nem o Pinto da Costa.

 



 
 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014


Te cuida Miró! Os quarenta ladrões estão à solta!

 

 
Conheci o Miró na prisão…
Depois de uma greve de fome de trinta dias, na penitenciária do Estado de S. Paulo, para onde cerca de trinta presos políticos foram transferidos por ordem do auditor militar, um tal Dr.Nelson, fomos depois enviados para o presidio do Carandiru. Nessa greve, foi importante a acção, entre outras pessoas, do Núncio Apostólico e do Cardeal Arms, Arcebispo de S.Paulo, e sobretudo, a decisão da ditadura, transformada em ordem para os médicos, de que nenhum de nós poderia morrer. Devo acrescentar ainda que a penitenciária de S. Paulo era um lugar destinado não apenas a guardar os presos até que eles cumprissem a sua pena, mas sim a destrui-los psicológica e moralmente. Ao entrar lá, perdia-se imediatamente a identidade e os presos passavam a ser conhecidos apenas por um nº que os acompanharia enquanto lá estivessem. A reclusão era total, quebrada apenas por uma hora de “banho de sol”, se essa fosse a vontade do Diretor. A mesma arbitrariedade em relação às visitas, obrigatórias por lei, mas que a vontade do diretor podia cancelar a seu belo prazer.

Chegados ao presidio do Carandiriu, o coronel da PM Fernão Guedes, seu diretor, reuniu-nos e disse-nos o seguinte:

-“Agora tratem de se recuperar. Os médicos do presidio estão a par da vossa situação. A minha função aqui, como Diretor, é apenas a de manter-vos presos, proporcionando-vos as condições necessárias para que a vossa vida corra normalmente, pois não é meu direito agravar as vossas penas, tornando-as mais difíceis ainda de cumprir. Esta norma serve para mim, para todos os responsáveis de pavilhão e para vós mesmos. Agora distribuam-se pelas celas como quiserem e organizem-se neste espaço. As vossas visitas e banhos de sol serão regidos pelas mesmas normas de todos os presos.”

Era a primeira vez, em todas as prisões por onde tinha passado, onde um Diretor afirmava tais coisas. Afirmou e sempre cumpriu. Quando ficámos sós, sentámo-nos numa sala grande, olhámos uns para os outros. Custava-nos a acreditar no que ouvíramos, mas diante da realidade, começámos a definir o que seria a nossa vida ali naquele presidio. Fizemos então uma lista de pedidos a encaminhar à Administração: receber livros, jornais e música; celas abertas durante todo o dia; possibilidade para praticar desporto e ainda de fazer artesanato-atividade importante para nós - não só porque nos mantinha ativos, mas também porque ajudava as famílias de alguns companheiros em dificuldade. Todas as exigências foram atendidas sem reservas.

Foi nessas circunstâncias que um dia chegaram ao presidio, durante uma visita, umas coleções de reproduções de pintores célebres, entre os quais Juan Miró, que quase ninguém conhecia, mas que agradou a  todos pela possibilidade de ser reproduzido em couro, pelo sistema  BATIK.

Comigo, foi amor à primeira vista, sempre que podia, levava o livro, onde estavam as reproduções das suas pinturas, para a cela e ficava a examiná-las horas seguidas, tentando encontrar nelas algum sentido. Depois via-me de olhos fechados a examiná-los e, aí, tudo se animava por detrás da minha retina. Comecei até a pensar que  Miró, antes de pintar os seus quadros, ficaria de olhos fechados  a olhar para o nada, esperando que alguma coisa acontecesse e então aconteciam aquelas pinturas. Mais tarde, li que Miró pintava as imagens que se iam construindo na sua cabeça quando estava de olhos fechados. É por isso que Miró foi meu companheiro de prisão e  continuou a acompanhar-me pelos muitos lugares por onde andei depois.

Vem isto tudo a respeito da polémica absurda que agora se levanta em torno das 85 pinturas de Miró, propriedade do estado português, melhor dizendo, de todos os portugueses, que o 1º Ministro e a horda de traficantes que fazem parte do seu Governo, querem vender para saldar parte de uma dívida insolúvel que eles mesmos fizeram.

Nem me admira muito que esta horda esteja tão determinada a vender aquilo que não é seu, uma vez que eles são capazes de vender a própria mãe e entrega-la ao comprador.

Muitas vezes fala-se com horror da Inquisição que queimava pessoas vivas, desenterrava cadáveres para os julgar e queimar na fogueira, queimava livros, desterrava pessoas, destruía obras de arte, era inimiga jurada da ciência, e durante mais de 300 anos reduziu este país à maior indigência intelectual e política de que se tem memória na História. Fala-se também com horror, das perseguições nazistas aos intelectuais, aos homens de cultura, aos artistas de todas as artes e também da queima pública de livros. Para um nazi bastava apenas um livro: Mein Kampf. Foi esse o mesmo argumento que levou o comandante muçulmano que conquistou Alexandria a mandar queimar a biblioteca de Alexandria, a maior, a mais rica e a mais famosa do mundo. Segundo ele, o mundo precisava apenas de um livro: O Corão.

Mas não precisamos de ir procurar argumentos a outros lugares. O que fizeram em Portugal as Mesas Censórias? Que comportamento teve em relação à cultura e à inteligência, o fascismo? E já depois do 25 de Abril, não houve aqui um Secretário de Estado da Cultura e um Primeiro Ministro que anatematizaram  a obra do único prémio Nobel de Literatura que Portugal Já teve, José saramago?

O que me preocupa, no caso da tentativa de venda fraudulenta das obras de Miró, é que se transforme apenas numa tempestade num copo de água com debates acessos no princípio, mornos, a seguir, e depois esfrie, animando a quadrilha do governo a uma nova tentativa, melhor preparada, e com sucesso quase garantido. No momento, a discussão está na rua mas ainda não chegou ao povo que, pressionado pelos muitos problemas que o afligem, não tem tempo nem cabeça para se preocupar com atentados culturais. É necessário que a indignação chegue às ruas e  que as  pessoas comuns entendam que um povo sem cultura, não é um povo, é, no máximo, um rebanho  de carneiros castrados que querem apenas comer. E é na transformação deste povo português que já deu provas em muitas ocasiões de ser capaz de tomar grandes atitudes, atitudes até extremas, de ocupar o seu lugar na História, que essa quadrilha do Governo e seus apoiantes, dentro e fora da Assembleia da República, quer transformar em rebanho castrado. Hoje vendem o Miró, amanhã o acervo do Museu de Arte Antiga, depois o Museu de Arte Moderna, logo a seguir o Jerónimos e Alcobaça a uma empresa hoteleira e não pararão até que nos transformem a todos em trabalhadores temporários com deveres e sem direitos. Sei do que estou a falar porque levo mais de 50 anos a lutar contra essas quadrilhas e a tentar contribuir para a construção de um mundo solidário, fraterno e humano, onde a cultura seja um bem primordial.

Alípio de Freitas

P.S. Sabe-se que o BPN teria no seu acervo não apenas 85 quadros do Miró mas sim 200 peças. O que é feito das 115 que faltam? Talvez a quadrilha que geriu o BPN a seu favor e faz de conta que nada disto é com ela saiba alguma coisa sobre o assunto…!

Se eu tivesse os 35 milhões de euros, eu mesmo comprava os 85 quadros de Miró e haveria de construir um Museu onde seria proibida a entrada a todos os membros da quadrilha do Governo e ainda a de todos aqueles que a apoiam dentro e fora do Parlamento…

 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013





O direito a um lugar para viver






O Senhor Presidente da República e o seu Ministro de Negócios Estrangeiros ficaram extremamente indignados com o desembarque em Portugal de 74 refugiados sírios, vindos da Guiné-Bissau. Também a TAP afinou pelo mesmo diapasão. Entre as muitas exigências colocadas pelo Senhor Presidente da República à Guiné-Bissau está a de que o seu Governo deve esclarecer em minúcia tudo o que aconteceu no aeroporto de Bissau. Não deixa de ser caricato que o Governo português exija de um Governo, que não reconhece, explicações cabais sobre um determinado assunto. A TAP, por sua vez, tomou a decisão que lhe parecia mais correta. Suspendeu os voos entre Guiné e Portugal, trissemanal, até que existam condições objetivas para o funcionamento da empresa. Convém porém dizer que a TAP não tem poderes de polícia para aceitar ou recusar passageiros porque estes já foram liberados pelas autoridades policiais aduaneiras. Essa atitude, quanto a mim, enquadra-se numa prespetiva xenófoba e racista, prespetiva essa que não levou em consideração o facto de os passageiros virem de um país em guerra civil. E já agora, sempre quero dizer que , no deve e haver entre Portugal e a Guiné-Bissau, o saldo é francamente desfavorável à Guiné. Durante séculos os portugueses caçaram, exportaram e venderam milhares e milhares de escravos arrancados à Guiné. Quando os portugueses finalmente resolveram estabelecer-se definitivamente na região, depois do tratado de Berlim, fizeram-no a ferro e fogo. Para a  Guiné  emigraram milhares de portugueses e aí construíram as sua vidas e as suas fortunas. Finalmente, quando os povos da Guiné decidiram tornar-se independentes e construir um país, Portugal moveu-lhe uma guerra durante 12 anos  que só terminou no 25 de Abril. Devem também os portugueses lembrar-se de que há milhões de concidadãos seus emigrados no mundo, de que houve milhares e milhares de portugueses sem papéis que saíram a salto em busca da liberdade e de melhores condições de vida. Hoje mesmo milhares de portugueses, jovens na sua maioria, abandonam este país em busca de uma vida melhor em muitos lugares do mundo.
Eu mesmo fui emigrante, emigrante clandestino, passei fronteiras com papéis verdadeiros e falsos, vivi anos na clandestinidade, fui exilado político e após dez anos de prisão achei-me na condição de apátrida. Só em 1984 eu recuperei a minha cidadania. Vivo agora em Portugal, onde trabalhei, pago impostos, voto e continuo a lutar por um mundo onde ninguém tenha de ser clandestino.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013





Madiba: 

Hoje foi uma grande perda para o Mundo e maior perda para mim!
Mas não quero recordar o dia de hoje como o dia da tua partida. Quero celebrá-lo antes como o momento em que tu te transformaste em miríades de pequenas luzes que se incrustaram nos corações do teu povo e daqueles que, em todo o mundo, percorrem os teus caminhos, seguem os teus passos. Por vontade tua o teu corpo será sepultado na tua aldeia natal, junto da tua mãe e da teu filho mais velho. O teu corpo. O teu corpo, que o teu espírito já viajou para a constelação da Utopia onde te encontrarás com todos aqueles que lutaram por um mundo melhor e mais solidário, por um mundo mais fraterno. Os que ainda por aqui ficamos, os mais novos e aqueles que já estão na reta final das suas vidas, todos hão-de continuar a tua luta. Por mim, Madiba, quero dizer-te, mais uma vez e sempre, PRESENTE!
 
Alípio de Freitas

terça-feira, 24 de setembro de 2013

http://www.youtube.com/watch?v=hfKU5pA-CRI&list=PL8A0CEC4F0A877D14



Paulo Wright-Amigo maior que o pensamento

Pediram-me amigos  e antigos companheiros de Santa Catarina um depoimento sobre Paulo Wright. Sobre ele e sobre os acontecimentos que levaram à sua morte às mãos da ditadura militar brasileira.
Conheci o Paulo em 1963, no escritório central da Frente de Mobilização Popular. Era ele então deputado estadual na Assembleia Legislativa de Santa Catarina e protagonizava, em termos políticos, os propósitos da Frente de Mobilização no tocante às Reformas de Base. Foi-me apresentado pelo Paulo Shilling, secretário executivo da Frete de Mobilização Popular que me sugeriu acompanhasse o Paulo a S. Catarina para aí, com ele e com outras lideranças políticas e sociais, dinamizar  as atividades da Frente.
Assim, percorri uma boa parte do Estado de S. Catarina participando de debates e comícios. Voltaria lá no começo de 1964 (fevereiro-março) para dar continuidade a esse trabalho e ajudar o Paulo a aprofundar o que ele mesmo vinha desenvolvendo havia anos. Regressei ao Rio de Janeiro depois do comício do presidente João Goulart, na Central do Brasil, pois a minha presença era requisitada com urgência. Foi durante essas visitas a Santa Catarina que comecei a construir com Paulo Wright uma amizade que dura até hoje.
Depois do Golpe Militar de 1964 encontrámo-nos no México onde repartimos amizades e experiências. Finalmente encontrámo-nos  em Cuba que era o objetivo fundamental da nossa saída do Brasil para o exilio. Terminada a missão que nos levara a Cuba, regressámos juntos  à América Latina, via Chile onde nos separámos,  regressando ele ao Brasil e viajando eu para a Argentina. Reencontrámo-nos em S. Paulo vários meses depois. Aí, por ele, soube de tudo o que acontecera na Ação Popular depois do regresso de Aldo Arantes e Betinho. Percebi imediatamente que a nova direção regressada do Uruguai, ainda que tivesse feito aprovar o documento -base que falava extensamente da luta armada, não só não tinha qualquer intenção de organizá-la, como se opunha a quaisquer contactos com as novas Organizações revolucionárias que estavam surgindo e que também se propunham fazê-lo. Mas a prova real disso mesmo tive-a quando depois de um longo e penoso trabalho, realizado por mim e pelo Mariano (Loyola), para encontrar um lugar para um campo de treinamento, me foi dito que não era essa a intenção da Organização e que se insistíssemos nesse caminho, o melhor mesmo era abandoná-la. Falei com o Paulo sobre isso, uma vez que ele era no organigrama da AP o responsável pela organização da luta armada. A única reação que dele obtive foi a de um grande desalento e deceção. Devo esclarecer, porém, que o Paulo sempre defendeu que quem deveria ocupar-se dos assuntos refentes à luta armada era eu, uma vez que já tinha  experiências nesse campo. Fomo-nos encontrando, vez por outra, aqui e ali, sem nos perguntarmos muito sobre aquilo que cada um estava a fazer. Algum tempo depois deixei S. Paulo definitivamente e embrenhei-me por todos os lugares do Brasil onde houvera movimento camponês organizado e sabia que havia companheiros que esperavam apenas uma palavra de ordem. Tudo isso porém, à revelia da Direção da Ação Popular que permanecia em S. Paulo, esperando sentada que a ditadura caísse. Foi nesse tempo que na última reunião em que participei me foi endereçado o convite para viajar para a China, convite que eu recusei pois não tinha outra  finalidade mais do que afastar-me do Brasil. Com o Paulo fui sempre mantendo contactos  mais servindo estes para aprofundar a nossa amizade pessoal do que para discutir questões político-ideológicas. Ele estava profundamente magoado com tudo o que ia acontecendo à sua volta, e eu não queria, de modo algum, piorar a situação com que ele se debatia. A certa altura, tive a impressão, repito, a impressão, de que o único apoio e amizade que ele tinha dentro da organização era eu, tal era o desânimo que se lhe podia ler na alma.
Não faltou quem estranhasse, dentro e fora da Ação Popular, que eu não tivesse participado da reunião que levou ao seu "racha" e que desembocou na AP-ML liderada por Jair Ferreira de Sá  e  no Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT), liderado pelo denominado "grupo do Rolando"(Vinicius Caldeira Brandt). A minha ausência justifiquei-a a mim mesmo por três ordens de razões: a primeira porque a reunião era tão somente um ajuste de contas entre o grupo do Jair (os militantes que tinha estado na China durante a Revolução Cultural) e os antigos dirigentes da Ação Popular que, vindos do Uruguai, usurparam o poder depondo a Direção então existente no Brasil; a segunda, era que nessa reunião participavam o Paulo Wright e o José Novais (líder camponês do nordeste), que eu sabia ficariam com a AP-ML, mas de quem me era absolutamente penoso  separar, tal era a nossa amizade  e identidade ideológica; a terceira razão era o facto de  a AP-ML tal como a antiga AP ser incapaz de compreender a necessidade e urgência de fazer confluir a esquerda revolucionária num único projeto que fosse credível e eficaz.
O José Novais encontrei-o casualmente já depois da Amnistia no aeroporto de S. Paulo, sendo ele então militante e dirigente do Partido dos Trabalhadores. O nosso abraço sem palavras e só com lágrimas ressarciu-nos do tempo perdido. Do Paulo fui sabendo notícias, cada vez mais esparsas, até à da sua prisão e desaparecimento. A ele chorei-o sozinho.
Muitas vezes quis acreditar que no final dos tempos  justiça se faria a todos aqueles que amaram os seus irmãos a ponto de darem por eles as suas vidas. Mas esse é um privilégio dos crentes. Eu prefiro ficar-me  com uma história que um dia, sendo eu ainda menino, me ensinou um velho lutador das causas do povo. Para lá do imaginário das pessoas e para lá de tudo o que as crenças ensinam, existe uma constelação, que os astrónomos não conhecem nem identificam - a constelação da Utopia - onde todos aqueles que lutam toda a sua vida por um mundo só de irmãos se transformam em estrelas quando partem da terra , cumprida a sua missão. É para lá que eu olho, seja qual for o tempo, sempre que quero recordar o Paulo Wright, o José Novais, o Mariano, o Raimundinho, o Augusto do Nascimento,  o João Pedro Teixeira, o Marighella, o Lamarca, o Frei Tito, o Câmara Ferreira, o José Porfírio, o Epaminondas, o Massena e os mil e mil outros que lutaram todos os dias e cujas vidas foram ceifadas pelo capitalismo, pelo latifúndio, por ditaduras cruéis. Neste momento em que a cegueira física me jogou num labirinto do qual sozinho jamais saberia sair e em que algumas vezes, mesmo com a meta à vista, a vontade de existir é quase insuportável, é deles, de todos eles e muito especialmente do Paulo que me socorro para continuar. Obrigado, Paulo.
É importante que se recorde aqui que a opção do Paulo Wright  pela Revolução não só foi uma opção de alto risco como lhe custou inúmeros sacrifícios e incompreensões. Mas essa escolha começara a delinear-se já antes de 1964 quando quase solitariamente, como deputado estadual, começou a interessar-se pelas organizações sindicais de trabalhadores e pescadores, transformando a sua opção evangélica numa força combativa  permanentemente ao serviço dos pobres e dos trabalhadores. Depois de 64 não teve dúvidas e dividiu com a sua família a quem não deu a assistência que gostaria de ter dado, os custos de uma clandestinidade difícil. Como militante revolucionário nunca discutiu cargos na hierarquia das organizações a que pertenceu, mas sempre esteve disponível para o cumprimento de todas as tarefas de que o incumbiram. Viveu pobremente, às vezes em quase situação de miséria como alguns amigos comuns me reportaram. Foi expulso da sua Igreja como se de um herege se tratasse  e só bem tardiamente essa mesma Igreja o readmitiu atribuindo-lhe o lugar que era seu por direito. Também a Assembleia Legislativa do seu Estado a quem ele prestigiou com a sua luta, o expulsou. Tardou a reconhecer-lhe os seu méritos de cidadão, cidadão empenhado e lutador das verdadeiras causas do povo. Vale, porém, que do coração e da memória  dos seus familiares, amigos e companheiros ele nunca esteve ausente.
José Afonso foi o maior cantautor revolucionário de sempre da língua portuguesa. Valendo-me da amizade que nos unia quero deixar nesta crónica  uma das suas canções, para mim, a mais simbólica  e representativa de todas as que escreveu,  como se fora uma homenagem ao Paulo Wright.    

"Utopia" de Zeca Afonso
Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria

Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria
Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa

Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?