Confesso que estou verdadeiramente preocupado com a saúde de Hosni Moubarak, o deposto ditador egípcio. É que a morte pode livrá-lo do julgamento em tribunal, onde será confrontado com todos os crimes que, ao longo de trinta anos, cometeu contra a humanidade e o povo egípcio. Hoje, mais do que nunca, acredito que a força da vontade dos homens livres e humilhados, de todos os que lutam e exigem justiça, pode manter Hosni Moubarak vivo, para que ele possa, finalmente, ser julgado e sentar-se na cadeira dos réus e ser confrontado com todos os seus crimes. Esta luta pela justiça, pelo direito à memória e à verdade já está a acontecer em alguns países do mundo e com sucesso. É preciso, porém, que se universalize, para que não haja mais crimes sem castigo, para que não vingue a impunidade e a opressão consentida (?) tome o lugar da justiça. A História não pode confundir-se com o seu branqueamento, transformando até o agressor em benfeitor, o governante iníquo em herói. Infelizmente o poder tem sempre os seus cronistas(?) de serviço.
Foi por não se ter feito justiça atempada e por se orquestrar o branqueamento do fascismo e de todas as tenebrosas figuras que o serviram, e ainda servem, que familiares do famigerado director -geral da PIDE, major Silva Pais, se atreveram a pedir indemnização em tribunal pelos danos morais causados ao "bom nome" do seu tio, a serem pagos pelos, à data, directores do teatro D. Maria II e pela autora da peça de teatro "A filha rebelde".
Esperamos que não aconteça com Hosni Moubarak o mesmo que aconteceu com o major Silva Pais e o general Pinochet que, por não terem sido julgados e condenados atempadamente, os seus crimes parecem, hoje, nestes tempos de confusão de valores e de interesses obscuros, em que vivemos, tornarem-se coroa de glória.
Queremos justiça. Não vingança.